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Saúde em dia

RFI

Entrevistas e reportagens com especialistas sobre as novas pesquisas e descobertas na área da saúde, controle de epidemias e políticas sanitárias.

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Paris, France

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RFI

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Entrevistas e reportagens com especialistas sobre as novas pesquisas e descobertas na área da saúde, controle de epidemias e políticas sanitárias.

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Galician

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116, Avenue du Président Kennedy Paris, France 1 5640 1212 / 2907


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Cientistas franceses criam esteira conectada que detecta sinais de Alzheimer e outros transtornos

4/14/2026
A equipe da neurocientista francesa Leslie Decker, da Universidade de Caen, no noroeste da França, desenvolveu um dispositivo que detecta sinais precoces de transtornos cognitivos e de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Lançado em 2019 no laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, o projeto Présage (Presságio, em tradução livre) é um programa acadêmico ambicioso que combina realidade virtual, matemática e inteligência artificial. Taíssa Stivanin, enviada especial da RFI a Caen O aparelho criado pelos cientistas franceses, parecido com uma esteira ergomética, foi instalado em uma sala de cerca de 15 metros de comprimento e nove metros de largura do CIREVE, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen. Ele rastreia e registra riscos cognitivos e motores enquanto o paciente caminha e responde a perguntas que mobilizam atenção e memória. “Essa esteira permite avaliar o sistema locomotor e detectar biomarcadores que fornecem informações sobre o estado de saúde do participante. Tecnicamente, a esteira se adapta ao ritmo do paciente. Ela é equipada com duas plataformas de força, que registram o que chamamos de força de reação do solo, gerando dados sobre o equilíbrio dinâmico”, explica a neurocientista francesa. "A esteira também pode se inclinar na direção escolhida pelo participante e nas direções medial e lateral, mais complexas, que mobilizam mais recursos cognitivos para manter o equilíbrio. A esteira, claro, está conectada ao ambiente virtual”, explica. Durante o teste, o paciente é submetido a estímulos cognitivos enquanto caminha — primeiro em velocidade constante e depois em ritmos diferentes com cada perna. Ao mesmo tempo em que busca o ponto de equilíbrio deve executar simultaneamente uma outra tarefa: ler uma palavra em voz alta se ela estiver posicionada embaixo de um retângulo ou dizer qual é sua cor se for um losango. Em seguida, os pesquisadores franceses utilizam parâmetros matemáticos para avaliar e caracterizar os movimentos do paciente em função do risco cognitivo e motor. Quando detectado, ele triplica a probabilidade de desenvolvimento de transtornos neurocognitivos graves. “A ideia é saber se, nesse estágio bastante precoce, conseguimos identificar pacientes com risco de desenvolver esses transtornos”, afirma Leslie Decker. Dispositivo já foi testado em cem pacientes Cerca de cem pacientes, com idades entre 55 e 87 anos, já testaram a ferramenta e 20 deles apresentavam a chamada síndrome do risco cognitivo motor (MCR), caracterizada por lentidão da marcha e queixas cognitivas subjetivas. Para definir um perfil locomotor específico dessa síndrome, a equipe utilizou modelos de inteligência artificial e analisou dados de pacientes saudáveis, estabelecendo critérios de comparação, explica o pesquisador Baptiste Perthuy. “Isso permite identificar pacientes com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso é muito interessante porque traz muitas informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções”, diz. Segundo o cientista Julien Rossato, outro integrante da equipe, quando esses transtornos afetam os movimentos e as funções mentais, é possível medir no teste a chamada reserva cognitiva - a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento. Ela pode diminuir com o surgimento de uma doença ou simplesmente se esgotar com o passar dos anos. “O que nos interessa particularmente é medir o desempenho nessas duas tarefas — caminhada e estímulos. Para isso, pontos semelhantes a eletrodos são conectados aos participantes e medem a posição no espaço, com ajuda de câmeras instaladas ao redor do sistema", explica. "Assim, temos acesso a variáveis como ângulos das articulações e o tempo que a pessoa leva para levantar a perna. Também avaliamos o desempenho cognitivo, registrando a voz do paciente e seu tempo de reação”, explica Rossato. A equipe...

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Francesa que desenvolveu anorexia aos 12 anos relata combate à doença em livro

4/7/2026
Oihana Bachelet, 25, vive em Toulouse, no sul da França, onde trabalha como tatuadora. Ela acaba de lançar o livro Des larmes et des os (Lágrimas e Ossos, em tradução livre), sobre seus oito anos de combate à anorexia nervosa, doença que afeta cerca de 1% da população feminina mundial e leva à distorção da imagem corporal. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Desde os anos 2000, a incidência de anorexia em meninas de 10 e 11 anos tem aumentado, como mostra a história de Oihana, que começou a sentir os primeiros sintomas por volta dos 12, em 2013. Foram oito anos de combate à doença, marcados por várias internações, inclusive em um hospital psiquiátrico. No auge da doença e praticamente sem comer, Oihana chegou a perder 18 quilos em seis meses e precisou ser alimentada por sonda. “As mulheres sofrem muita pressão em relação ao próprio corpo, e eu senti isso quando ainda era menina. Acredito que isso possa ter tido um impacto”, diz Oihana. Virginie Robert, médica dos setores de pediatria e reanimação neonatal do hospital François Mitterrand, em Pau, acompanhou a trajetória da jovem francesa. Segundo a pediatra, a puberdade é um período de transformações que favorece a fragilidade emocional. Essas mudanças, explica, podem desencadear diferentes “descompensações psiquiátricas”. No caso da anorexia nervosa, as dificuldades surgem da “perda de controle” sobre o próprio organismo. As meninas ganham formas, têm a primeira menstruação, a pele e os cabelos mudam, e os traços nem sempre são simétricos. A perda de peso provocada pela anorexia permite às pacientes interromper esse processo: elas deixam de menstruar e com podem parar de crescer. “A puberdade e o desenvolvimento fisiológico ficam interrompidos. É uma doença que também é mais frequente entre adolescentes em busca de perfeição, controle e desafios”, acrescenta a pediatra. Em seu livro, a jovem, uma excelente aluna que nunca abandonou os estudos apesar de seu problema de saúde, descreve bem essa autoexigência. “Existe uma busca constante pelo perfeccionismo — nas notas e no esporte. Quando eu começava um regime, era a mesma coisa: ele tinha de ser perfeito", conta. "A anorexia foi desaparecendo aos poucos da minha vida quando passei a ter bulimia e hiperfagia. Esse outro transtorno foi diminuindo, e fui tendo cada vez menos crises. Hoje tenho uma relação muito mais tranquila com a comida e com meu corpo, mas ainda é difícil para mim ver meu reflexo em um vídeo ou no espelho. É complicado de administrar, mas às vezes me acho bonita, e isso me faz bem. No fim, foi o tempo que me curou.” Adolescência favorece distúrbio Na adolescência, o cérebro, ainda em desenvolvimento, é mais propenso à dependência. O regime pode, desta forma, funcionar como uma forma de regular estresse e ansiedade. “Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de doenças que geram dependência, com mecanismos neurobiológicos ligados à recompensa e ao sistema de dopamina. Quando tentamos perder peso e conseguimos, isso é gratificante. O cérebro do adolescente é sensível a isso”, explica Virginie Robert. Nesse contexto, é importante ajudar os adolescentes que sofrem com a doença que é preciso descobrir outras formas de administrar ansiedade, tristeza e alterações de humor. “A psicoterapia avança a partir do momento em que o adolescente aceita que há um problema e que ele não controla mais nada. É uma doença que engana, dá a impressão de controle ao racionar a alimentação, mas na verdade há perda de controle. O jovem deve entender que é a doença que está controlando seu cérebro”, afirma. Essa consciência, diz Oihana, a ajudou a lutar contra o transtorno e a prever e evitar crises. Sintomas Embora alguns sintomas — como o emagrecimento rápido — possam ser semelhantes, a pediatra lembra que cada caso é individual, envolve a história de vida do paciente e requer protocolos de tratamento distintos. A anorexia pode ser, por exemplo, secundária a uma depressão, e a trajetória pessoal e familiar é...

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Psiquiatra francês especialista do sono dá dicas de como dormir bem

3/31/2026
Dormir mal pode afetar diretamente a saúde e aumentar o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, câncer e transtornos mentais. Entender os mecanismos neurológicos do chamado sono “bom” — aquele que nos faz sentir descansados ao acordar — ajuda a tratar a insônia, a sonolência e o cansaço crônico. Quais hábitos e fatores do dia a dia podem atrapalhar o momento de dormir e o próprio sono? Quanto tempo de descanso é necessário em cada fase da vida? Segundo o psiquiatra francês Pierre Alexis Geoffroy, especialista em medicina do sono, autor do livro La nuit vous appartient, ou “A Noite é Sua”, em tradução livre, a falta de sono pode acelerar o envelhecimento do organismo e interferir na capacidade de aprender. Na obra, ele explica quais são os mecanismos que favorecem o descanso, como regularidade, duração, o ritmo e adequação ao funcionamento do próprio relógio biológico. Outros fatores influenciam o sono, como a luz, o silêncio e os hormônios. De acordo com o psiquiatra francês é importante saber interpretar as queixas dos pacientes. Os dados mostram que quase metade da população mundial se queixa de insônia, mas muitas pessoas tomam remédio para dormir — com recomendação médica em vários casos — sem conhecer as verdadeiras causas das dificuldades que as impedem de dormir. “A insônia é uma das principais queixas das consultas. Os pacientes dizem que não dormem o quanto gostariam ou não dormem bem. Outros se queixam de hipersonolência: dormem demais ou durante o dia. A terceira queixa mais comum envolve problemas de comportamento noturno, como o sonambulismo. Muitas doenças explicam esses sintomas.” O primeiro passo para dormir bem, diz o psiquiatra, é a regularidade. Isso significa conhecer bem o próprio ritmo de sono, que é determinado por um grupo de cerca de 25 genes que gerenciam nosso relógio biológico em um ciclo de 24 horas. Esse funcionamento está vinculado ao ritmo de todas as espécies na Terra, em função da exposição à luz solar. “Há pessoas matutinas e outras mais despertas à noite. Isso é definido geneticamente e não podemos mudar. Com a idade, essa tendência evolui um pouco. As crianças, por exemplo, são mais alertas de manhã, e os adolescentes, de noite. É normal, eles não fazem de propósito e não é preguiça: em geral, dormem entre duas e três horas depois de um adulto e têm dificuldade em ir para a cama antes das 23h. Ao envelhecer, nos tornamos mais matutinos.” Conhecer a própria necessidade diária de sono também é essencial para obter o merecido descanso. “Há quem durma pouco; outras pessoas precisam dormir mais. Mas a maior parte dorme entre sete e oito horas. Após 15 dias de férias, sem obrigações e com o ritmo livre, é possível avaliar qual é essa necessidade e o tempo ideal de sono”, explica. Os fatores ambientais e as condições de vida também são determinantes. O tipo de moradia, a qualidade da cama e do colchão, a calefação e até a poluição luminosa ou acústica influenciam diretamente a qualidade do sono. “Algumas pessoas argumentam que conseguem dormir com a luz acesa ou com barulho, mas, quando isso ocorre, há o que chamamos de integração sensorial. O cérebro capta o barulho e o interpreta como informação. O sono então se torna mais fragmentado, menos profundo, de pior qualidade, e isso repercute no dia seguinte.” Doenças do sono Dormir bem exige escuridão, silêncio e temperatura ideal. Quando todos esses fatores estão reunidos e o sono continua ruim, é preciso investigar as causas. Doenças como a apneia do sono — pausas respiratórias involuntárias que surgem enquanto dormimos e provocam repetidas quedas no nível de oxigênio no sangue — representam risco para o sistema cardiovascular. A apneia também desregula o relógio biológico e provoca problemas metabólicos. O sono ruim também pode estar na origem — ou ser resultado — de doenças como depressão, transtornos ansiosos e dependência química. Segundo Geoffroy, um estudo mostrou que, após sete anos, metade dos participantes que...

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Cientistas suíços identificam primeiro biomarcador da ansiedade no sangue

3/24/2026
O estudo conduzido pelo psiquiatra e neurocientista Nicolas Toni e pelo cientista Thomas Larrieu, do Hospital Universitário de Lausanne, e publicado recentemente na revista Nature Communications, mostrou que a ansiedade se manifesta por taxas elevadas do lipídio LPA 16:0 no sangue e por sua interferência na neurogênese — a produção de novos neurônios a partir de uma célula-tronco neural. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A descoberta gera novas perspectivas para o diagnóstico das doenças mentais. A ansiedade é uma emoção humana normal, que nos permite lidar com situações de risco, tomar decisões adequadas e nos proteger de ameaças. Quando esse estado de alerta se torna frequente, com sintomas emocionais e físicos, pode indicar um transtorno mental, como a depressão. Há várias décadas, os psiquiatras se baseiam em questionários de autoavaliação ou outros testes comportamentais para identificar o transtorno de ansiedade. Esses métodos têm seus limites, porque resultam de análises subjetivas, que nem sempre condizem com o estado real do paciente. Esse processo é essencial para a plasticidade cerebral e ocorre no hipocampo, estrutura situada nos lobos temporais do cérebro e conhecida como sede da memória e do aprendizado. “A ansiedade é um fator preditivo de outros transtornos psiquiátricos, principalmente a depressão. Saber com antecedência, se fazemos parte do grupo de risco, faz com que possamos preveni-los.” Durante a pesquisa, os cientistas injetaram o lipídio em animais e descobriram que ele aumentava a resistência deles ao estresse e à depressão. “Isso corrobora o fato de que a ansiedade é um fator de risco para a depressão, que a neurogênese adulta tem um papel na transição da ansiedade para a depressão e que, ao bloquear esse receptor, podemos ter um efeito antidepressivo”, explica o cientista suíço. Os cientistas agora devem aprofundar os estudos e testar a toxicidade e a tolerância à molécula para, no futuro, introduzir o biomarcador na prática clínica. A equipe do cientista suíço estuda há vários anos a neurogênese em adultos e as células-tronco neurais presentes no hipocampo, explica Nicolas Toni. Elas têm uma estrutura bastante específica, parecida com uma árvore. Ao microscópio, os cientistas puderam observar que esses pequenos “galhos” envolviam não só as sinapses — que são a transmissão de sinais entre os neurônios —, mas também os vasos sanguíneos. “A primeira pergunta que fizemos foi: será que moléculas que circulam no sangue podem regular a neurogênese e a função das células-tronco neurais?” Essa primeira hipótese foi o resultado de quatro anos de pesquisa. No laboratório, a equipe começou a testar o que acontecia quando o sangue entrava em contato com essas células em uma placa de Petri com soro fisiológico. Os cientistas fizeram testes com amostras de sangue de camundongos e notaram que, de acordo com o animal doador, a produção de células-tronco neurais diminuía ou aumentava. “No soro havia moléculas que atuavam na neurogênese adulta, principalmente nas células-tronco. Sabíamos que a corticosterona, que é um biomarcador do estresse, estava em ação”, explica o cientista. Mas, expostos a diferentes situações, os camundongos mais ansiosos por natureza ou submetidos a algum tipo de estresse tinham uma proliferação menor de células-tronco cerebrais. Análise de sangue humano A equipe de Nicolas Toni então analisou o sangue dos animais no laboratório da Faculdade de Psiquiatria da Universidade de Lausanne, comparando-o a amostras de sangue de cerca de 80 pacientes atendidos no hospital da instituição, muitos usuários de ansiolíticos. Os cientistas buscavam descobrir se o sangue desses pacientes também inibia a neurogênese. O estudo in vitro resultou em uma ampla análise bioquímica. “Foi assim que descobrimos que a molécula que mais se correlacionava com a proliferação das células-tronco in vitro e com o nível de ansiedade do paciente era o lipídio LPA 16:0.” Os cientistas também analisaram...

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Pressão estética alimenta mercado de canetas emagrecedoras; risco de uso a longo prazo é desconhecido

3/17/2026
Os análogos de GLP-1 revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas seu uso vem sendo deturpado por pacientes que os utilizam sem indicação médica. No Brasil, segundo dados divulgados em fevereiro pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), desde 2018 foram registradas 65 notificações de morte, potencialmente associadas às canetas injetáveis, que aceleram a perda de peso. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A semaglutida, a liraglutida, a dulaglutida e a tirzepatida são moléculas sintéticas que “imitam” o GLP-1, um hormônio intestinal. Elas controlam o apetite, a sensação de saciedade e o nível de glicose no sangue, facilitando o emagrecimento — mesmo sem excesso de peso. A diferença entre essas substâncias, conhecidas pelos nomes comerciais Ozempic, Wegovy e Mounjaro — que atua no GLP-1 e no GIP, outro peptídeo — está na posologia, dosagem, potência de ação e efeitos colaterais. O uso estético das canetas é um fenômeno que se expande em vários países e vem sendo analisado em estudos internacionais. Uma das pesquisas, publicada recentemente na revista científica Obesity, foi coordenada por Fernanda Scagliusi, que dirige o Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC), e Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV), das Faculdades de Medicina e de Saúde Pública da USP. O estudo contou com a participação de especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão, que alertam para a "economia moral da magreza". “O Brasil é um país em que a pressão estética pela magreza e a gordofobia são muito fortes e violentas. Mesmo uma pessoa com peso considerado clinicamente normal vai sofrer por causa do corpo e sentir necessidade de usar esses medicamentos. Temos insistido nisso: quando uma pessoa usa algo, é porque acredita que tem necessidade”, diz Fernanda. A equipe da pesquisadora trabalha atualmente em outros estudos que analisam a venda das canetas emagrecedoras no mercado desregulamentado. No Paraguai, os medicamentos podem ser comprados sem receita nas farmácias e em camelôs e no Brasil, algumas farmácias de manipulação fabricam e vendem os remédios sem o controle da Anvisa. Até meados do ano passado, também era possível adquirir as moléculas sem receita nas farmácias brasileiras. Com ou sem prescrição médica, o alto custo dos medicamentos — uma caixa de Mounjaro, por exemplo, pode custar mais de R$ 2,5 mil — incentiva o mercado paralelo. “Estamos fazendo um estudo sobre esteroides e anabolizantes e percebemos que grupos no WhatsApp e no Telegram que vendiam esteroides e anabolizantes também estavam vendendo essas canetas”, explica Fernanda. Esses mesmos grupos, diz, vendem remédios psiquiátricos, drogas ilícitas e, em alguns casos, até armas de fogo. "Essas canetas obtidas fora das vias regulares podem impactar a saúde das pessoas. Às vezes não é a droga em si, o princípio ativo, mas um contaminante, uma impureza, que pode prejudicar a saúde e até levar ao óbito.” Efeitos a longo prazo Em relatório publicado no ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que mais estudos são necessários para avaliar o uso a longo prazo dos análogos do GLP-1. “É uma medicação relativamente nova e não sabemos ainda quais são os efeitos colaterais do uso crônico. Nesse ponto, nosso grupo tem divergido bastante dos endocrinologistas, que repetem o mesmo discurso da indústria farmacêutica: a obesidade é uma doença crônica, e toda doença crônica exige tratamento para o resto da vida, como diabetes e hipertensão”, observa a pesquisadora brasileira. “Existem outros fatores que influenciam a relação entre peso e desfechos negativos de saúde. Entendemos também que chamar obesidade de doença traz uma carga de pânico e moralização social que não podemos ignorar. Além disso, não temos estudos que mostrem o que acontece quando as pessoas tomam esses medicamentos por 20, 30, 40 ou 50 anos.” Segundo a pesquisadora, estudos da sua equipe também demonstraram que muitos dos...

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Quais as principais dúvidas dos pacientes que recebem um diagnóstico de câncer?

2/24/2026
Como explicar que alguns cânceres são mais difíceis de tratar do que outros? O que determina o prognóstico e as chances de sobrevida? A oncologista francesa Laurence Albigès, chefe do setor no Instituto Gustave Roussy, em Villejuif, nos arredores de Paris, fala sobre os avanços na prevenção, diagnóstico e tratamento da doença. Em 2022, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), foram registrados 20 milhões de novos casos de câncer e 9,7 milhões de mortes. As estimativas do Observatório Global do Câncer (GCO, na sigla em inglês) englobam 185 países e 36 tipos de câncer. Segundo os dados, coletados em 2022, dois terços de todos os novos casos e mortes pela doença no mundo concentram dez tipos de tumores malignos. O câncer de pulmão é o mais comum, com 2,5 milhões de novos diagnósticos, e representa 12,4% do total. O câncer de mama chega em segundo lugar, com 2,3 milhões de casos (11,6%) e o colorretal ocupa a terceira posição, com 1,9 milhão de casos (9,6%), seguido pelo câncer de próstata, que registra 1,5 milhão de diagnósticos (7,3%). Na quinta posição está o câncer de estômago, responsável por 970 mil casos e equivalente a 4,9% do total mundial. “O câncer é uma palavra que gera medo, e os pacientes e suas famílias se questionam muito quando têm o diagnóstico. Na realidade, quando os pacientes são atendidos e o tratamento começa, essas dúvidas são menos recorrentes, mas é importante continuar falando sobre elas e deixar a porta do consultório sempre aberta para respondê‑las”, explica a oncologista francesa Laurence Albigès. Em função do órgão afetado e do tipo de câncer, a abordagem médica será diferente, mas há outros fatores que influenciam as decisões das equipes. “O prognóstico está relacionado à extensão da doença. O tumor é localizado e pode ser curado? Ou a doença já se disseminou, está se propagando e existem metástases? Nesse caso, mesmo que uma remissão não seja impossível, com frequência o câncer vai evoluir no organismo.” A taxa de mortalidade de um determinado tipo de câncer está baseada em dados científicos e epidemiológicos, e com frequência está diretamente relacionada às chances de melhora do paciente. Mas essas estatísticas dão apenas uma dimensão global da situação. Cada caso traz suas especificidades no manejo, reitera a oncologista francesa, lembrando que o atendimento é cada vez mais personalizado. “Essas estatísticas não se aplicam a um indivíduo. O paciente será acompanhado, e teremos ao longo de sua trajetória cada vez mais acesso a diferentes tipos de tratamentos, mais inovadores. No Instituto Gustave Roussy, por exemplo, temos novos medicamentos sendo testados. Por isso é sempre importante explicar que essas estatísticas não se aplicam a uma pessoa.” Outros critérios, independentemente da gravidade da doença, devem ser levados em conta. Entre eles estão o sistema de saúde, o acesso a tratamentos inovadores, a formação dos profissionais e o financiamento das diferentes formas de atendimento, que têm impacto direto na remissão, cura e sobrevida. Estágios do câncer O que significam os quatro estágios do câncer, que vão vão de um a quatro e indicam o nível de evolução da doença? Nos dois primeiros estágios, as células cancerígenas estão restritas ao órgão afetado, e a remissão e a cura são, com frequência, possíveis. No estágio 3, o tumor está começando a se espalhar, e no 4 atingiu outros órgãos, ou seja, há metástase. Outra questão frequente envolve a diferença existente entre cânceres líquidos e sólidos, que são tumores malignos que aparecem em diferentes órgãos, como pulmão, mama e próstata. Os cânceres hematológicos, que se localizam nas células sanguíneas ou da medula óssea, são chamados de "líquidos", com alterações visíveis em um hemograma, por exemplo. De acordo com a oncologista francesa, a morfologia do órgão atingido pelo tumor maligno é um fator essencial. No cérebro, por exemplo, os cânceres às vezes se infiltram nos sulcos. Isso faz com que, cirurgicamente, a...

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Pesquisa inédita cria ‘cartografia’ para decodificar cérebro do homem pré-histórico

2/17/2026
O paleoantropólogo francês Antoine Balzeau, pesquisador do Museu Nacional de História Natural, em Paris, é o autor principal de uma pesquisa recente publicada no Journal of Anatomy. O estudo permitiu, pela primeira vez, criar uma cartografia detalhada dos vestígios encontrados nos endocrânios, a cavidade interna da caixa craniana. Esse imenso banco de dados, construído a partir dos dados de dezenas de voluntários, ajudará cientistas do mundo todo a decodificar com mais precisão o cérebro do homem pré-histórico. Taíssa Stivanin, da RFI Brasil em Paris O cientista francês Antoine Balzeau estuda há cerca de 20 anos os endocrânios dos nossos ancestrais. Essa superfície funciona como um molde natural e guarda marcas deixadas pelo cérebro ao longo da vida à medida que ele cresce, fornecendo pistas, por exemplo, sobre seu tamanho. Como o órgão é um tecido mole, não existem fósseis de cérebros humanos e as impressões deixadas no endocrânio são uma das únicas maneiras que os cientistas têm de tentar reconstruir o cérebro de nossos antepassados. Conhecer essas marcas em detalhes abre perspectivas inéditas para a ciência, como entender, por exemplo, qual é a relação entre as estruturas cerebrais e o comportamento. "O objetivo é estudar o cérebro dos humanos pré-históricos, mas esse órgão não se fossiliza. Só nos resta o crânio e, dentro dele, o endocrânio, onde o cérebro deixa impressões, que vamos reconstituir e analisar para tentar compreender a forma do cérebro do homem pré-histórico", explica Antoine Balzeau, que também atua no CNRS (Instituto Nacional de Pesquisa Científica) As análises científicas que envolvem o endocrânio são "bastante subjetivas", segundo o pesquisador. Para comparar o cérebro dos homens pré-históricos com os dos humanos de hoje, os cientistas dispõem principalmente de enciclopédias de anatomia cerebral ou de outros documentos similares, cujos dados são baseados na média populacional. A nova cartografia muda esse cenário. "Decidimos investir na criação de uma padronização científica para realizar essa análise e entender, de fato, a relação entre a forma do cérebro e as marcas deixadas na superfície interna do crânio." Esse banco de dados fornece informações detalhadas em forma de impressões cerebrais no endocrânio, que ajudará os cientistas a decodificar o cérebro pré-histórico. Descrição da pesquisa O estudo conduzido pelo cientista francês durou cerca de três anos e envolveu 75 participantes de 18 a 75 anos, que passaram por um exame aprofundado de ressonância magnética, de cerca de três horas, no Instituto do Cérebro, no hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, localizado no 5º distrito da capital. O avanço dos exames de imagem nos últimos anos permitiu à equipe do cientista francês "fotografar" em detalhes o endocrânio dos voluntários, mas exigiu adaptação das ferramentas e dos programas de informática utilizados nas análises dos dados da ressonância. "Conseguimos reunir um grande volume de informações. Fizemos uma ressonância magnética no cérebro, outras duas específicas para o formato do crânio e outras imagens das estruturas cerebrais internas. O objetivo foi obter uma enorme base de dados anatômica, que ainda será explorada por muitos anos para tentar entender melhor todos os mistérios que envolvem o órgão", diz. A análise dos dados obtidos demorou cerca de um ano. "Foi preciso identificar todas as marcas deixadas no cérebro e no molde craniano, fazer as correlações necessárias, as estatísticas, comparar, escrever e analisar." O perfil dos voluntários, destaca Antoine Balzeau, era variado e incluía homens e mulheres na mesma proporção, além de atletas, músicos, destros, canhotos e pessoas com outras especificidades. A diversidade anatômica cerebral e comportamental foi um dos critérios fundamentais. De acordo com o pesquisador, objetivo é utilizar os mesmos dados em um outro estudo sobre a relação existente entre o formato do cérebro e o comportamento, que ainda está em fase de...

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Vacinas contra gripe podem ser mais eficazes contra transmissão, mostra novo estudo

2/10/2026
Uma pesquisa recente publicada na revista Nature Communication, de coautoria do cientista francês Simon Cauchemez, do Instituto Pasteur, em Paris, mostrou que é possível desenvolver no futuro vacinas contra a gripe capazes de reduzir a propagação do vírus. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris “O vírus da gripe muta sem parar, evolui e muda todos os anos. Isso faz com que nosso sistema imunológico tenha dificuldade em reconhecê-lo corretamente. Quando somos vacinados, estamos protegidos contra o vírus que está circulando naquele ano, mas esse vírus vai evoluindo progressivamente”, explica o pesquisador em epidemiologia, que coordena a Unidade de Modelagem Matemática de Doenças Contagiosas do Instituto Pasteur. “De um ano para outro, há vários tipos de vírus da gripe em circulação e diversos alvos terapêuticos possíveis. Às vezes a escolha não é certa. Por isso é difícil desenvolver vacinas que funcionam bem contra todos os vírus gripais que podem nos afetar”, completa. O estudo do Instituto Pasteur foi realizado em parceria com a Universidade de Michigan, nos EUA, e financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). De acordo com Simon Cauchemez, a obtenção de imunizantes mais eficientes passa pelo “tipo de resposta imunitária que estamos buscando com a vacina”, que deve ser capaz de identificar diferentes proteínas do vírus para gerar anticorpos. O vírus da gripe possui duas principais proteínas na superfície: a hemaglutinina (HA), uma glicoproteína que permite que ele se prenda às células, e a neuraminidase (NA), que permite ao micro-organismo se liberar da membrana da célula hospedeira para se replicar. A pesquisa se concentrou na ação da NA e mostrou que os anticorpos que o corpo desenvolve contra essa proteína podem não só diminuir o risco de contágio, mas também de transmissão. “Na verdade, dois tipos de impacto nos interessam. O primeiro é: quando temos anticorpos contra uma dessas proteínas, ficamos menos propensos a sermos infectados pela gripe? Ou seja, estamos individualmente protegidos contra a gripe?", questiona. "Essa é uma questão fundamental, claro. Mas, mesmo que a gente acabe se contaminando, será que transmitimos menos a gripe para as pessoas ao nosso redor?”. Estudo analisou dados de 171 famílias De acordo com a pesquisa, seria necessário integrar anticorpos contra a NA nas vacinas. Para chegar a essa conclusão, o cientista francês analisou os dados obtidos pela equipe americana da Universidade de Michigan junto a 171 famílias nicaraguenses e seus 664 contatos, nos anos de 2014, 2016 e 2017. A maior parte dos participantes nunca tinha sido vacinada contra a gripe, o que permitiu aos pesquisadores observar como ocorria a transmissão após a infecção. Os cientistas identificaram quais anticorpos eram mais eficazes para limitar a propagação, após realizar análises de sangue, testes virológicos e modelagens matemáticas. “Para cada indivíduo do domicílio, conseguimos ver que tipo de anticorpos ele tinha no início da epidemia e observar em que medida, graças a esse acompanhamento, esses anticorpos protegeram ou não a pessoa da infecção e, caso tenham sido contaminadas, protegeram ou não seus contatos.” De acordo com o cientista, os dados são raros porque mostram em detalhes como os anticorpos afetam as diferentes proteínas do vírus e de que forma influenciam a infecção e a transmissão. “O que vemos é que não temos apenas uma medida dos anticorpos contra a gripe de forma geral, mas realmente uma medida que foca em diferentes partes do vírus. Assim, podemos quantificar o efeito de cada um desses anticorpos sobre o risco de infecção e sobre o risco de transmissão. A longo prazo, o objetivo é, obviamente, orientar os esforços para desenvolver vacinas contra a gripe mais eficazes”, conclui o cientista francês.

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Dia Mundial de Combate ao Câncer: IA pode revolucionar o diagnóstico e o tratamento da doença?

2/3/2026
O Dia Mundial de Luta contra o Câncer é comemorado nesta quarta-feira (4). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a incidência de novos casos da doença no mundo passará de 20 milhões, em 2022, para 35,3 milhões, em 2050, o que representa um aumento de 77%. Apesar desse crescimento, o advento da inteligência artificial surge como um novo aliado no combate à doença: as trajetórias dos pacientes serão cada vez mais personalizadas e os diagnósticos e os tratamentos mais precoces e eficazes. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Através do cruzamento e análise dos dados, as novas ferramentas preditivas de IA vão ajudar, por exemplo, a identificar mais rapidamente pessoas com maior risco de desenvolver câncer e até mesmo prevenir seu aparecimento. Os objetos conectados também terão papel preponderante no acompanhamento dos pacientes, liberando tempo para as equipes médicas. O risco de recidiva também será analisado com mais precisão, diz Fabrice Balesi, diretor-geral do Instituto Gustave Roussy, situado em Villejuif, nos arredores de Paris. A direção do hospital, um dos maiores centros de combate ao câncer do mundo, reuniu a imprensa na capital francesa para explicar como está incorporando as IAs à prática médica. “Nosso objetivo é que o paciente esteja no centro da organização de acompanhamento e não seja apenas uma variável de ajuste de diferentes especialistas ou organizações. A inteligência artificial e as tecnologias digitais vão ajudar a organizar a trajetória do paciente, para que seja o mais simples possível”, diz Balesi. Paciente virtual A ideia, explica Fabrice André, diretor de pesquisa do centro, é personalizar o atendimento, criando o chamado “paciente virtual”. “Essa é a medicina do futuro, que vai reconstituir o paciente a partir do conjunto de informações disponíveis", diz. "São programas ou interfaces digitais que contêm todos esses dados, que podem ser sociais, demográficos, médicos ou biológicos. Tudo isso permite reconstituir virtualmente o paciente e sua doença.” Em seguida, explica, o desafio é associar o conhecimento ao arsenal tecnológico disponível para tomar as melhores decisões em relação ao caso. “Há também outras formas de pacientes virtuais. Em relação ao câncer, por exemplo, podemos reproduzir o câncer em placas de Petri, usadas para cultivar micro-organismos, e reproduzimos o câncer vivo”, detalha. Segundo Fabrice André, essas cópias vivas dos cânceres dos pacientes oferecem a possibilidade de testar medicamentos e encontrar moléculas eficazes contra tipos específicos de tumores malignos, dando maior chance de sobrevida aos pacientes. “As IAs poderão, por exemplo, afirmar que o melhor tratamento para um paciente não existe e que nós é que deveremos criá-lo. Ou dizer, levando em conta todo o conhecimento disponível, qual seria o melhor tratamento possível. Não se trata de substituir o médico. Isso é o coração da inteligência artificial: a IA generativa, baseada em agentes, que não apenas resume o conhecimento. Ela vai classificá-lo, priorizá-lo e desenvolver um raciocínio.” O Instituto Roussy criou um grande banco de dados que reúne informações de centenas de milhares de pacientes, que incluem também dados moleculares. Eles podem conter, por exemplo, detalhes genéticos em nível celular, que permitem modelar a biologia do câncer de cada paciente. Uma das dificuldades atuais, destaca Fabrice André, é padronizar os termos técnicos da oncologia, que podem ser usados de maneira diferente dependendo do clínico. Proteção dos dados A preocupação com as informações dos pacientes foi abordada por vários profissionais durante a coletiva. O estabelecimento criou suas próprias ferramentas para proteger os pacientes. Segundo o diretor-geral adjunto do instituto, Sylvain Ducroz, a supervisão humana e a garantia do controle e da soberania dos dados, que protegem a privacidade, são duas das prioridades do estabelecimento, que implantou diversas regras internas e não utiliza nenhum serviço de 'cloud’...

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Ferimentos nas mãos não devem ser banalizados; cirurgião explica riscos

1/27/2026
Facas de cozinha, trabalhos manuais, queimaduras ou uma porta que fecha repentinamente são algumas das situações que podem desencadear acidentes graves com as mãos, muitos deles dentro de casa. Os acidentes nas mãos nunca devem ser banalizados, alerta o cirurgião plástico Patrick Knipper, que atua no Hospital Europeu Georges Pompidou, em Paris. Alguns ferimentos exigem cirurgias complexas e podem até provocar a perda de alguns movimentos. Em casos mais graves, o membro deve ser amputado. Segundo ele, a maioria dos acidentes com as mãos acontecia em casa ou no local de trabalho, mas hoje há uma maior conscientização sobre os riscos profissionais. “As máquinas agrícolas ou prensas, por exemplo, eram ferramentas usadas com pouca proteção e provocavam muitos ferimentos nas mãos”, diz. “A prevenção é mais eficaz em relação à proteção das máquinas e à educação dos pacientes. Como cirurgião, constato uma diminuição desses acidentes”, afirma. "Hoje, os pacientes que buscam atendimento no pronto-socorro sofrem principalmente acidentes domésticos", ressalta. Muito cuidado Segundo o cirurgião, de modo geral, todo ferimento nas mãos, por menor que seja, exige cuidado. “Costumamos dizer que não existe ferimento banal nas mãos. Desconfiamos muito mais da mordida de um gato, com seus pequenos dentes afiados, que pode inocular alguma bactéria profundamente, do que, por exemplo, de uma grande lesão.” Os pacientes costumam minimizar esse tipo de situação, que muitas vezes é grave. “O gato, por exemplo, com seu dentinho, vai causar um ferimento. Isso, para os cirurgiões, é uma emergência, porque pode causar graves infecções.” Outro acidente muito comum em crianças, mas que ocorre também com adultos é o dedo preso no batente da porta, que pode ser esmagado. Em alguns casos, é necessário realizar uma cirurgia reconstrutiva. A reeducação para recuperar os movimentos das mãos pode ser complexa, explica o especialista francês. As reformas em casa, muitas vezes feitas por amadores, também são propícias a esse tipo de incidente. Luvas ou outros tipos de proteção para diminuir riscos devem ser utilizados, mas os lapsos de atenção são o maior problema e estão por trás de boa parte dos ferimentos. Primeiros socorros E o que se deve fazer quando o acidente acontece? Lavar com água e sabão e cobrir o ferimento com um pedaço de pano limpo é o primeiro passo para evitar uma infecção. O cirurgião francês lembra que o antisséptico deve ser usado apenas se o ferimento inflamar. Outro problema potencialmente grave é a fleuma ou unheiro. Trata-se de uma infecção bacteriana que atinge os tendões e pode levar até à amputação parcial de um membro em casos mais graves. Ela pode ser causada por uma farpa de madeira que entrou no dedo, por exemplo, ou simplesmente por uma cutícula encravada. “Em cerca de duas horas, a infecção atinge as mãos e o antebraço.” Esta é uma das muitas situações de emergência que não devem ser menosprezadas pelos pacientes. “A mão é um prolongamento do cérebro. Uma amputação da mão ou das mãos tem consequências sociais e psicológicas”, conclui o cirurgião francês.

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Experiências negativas vividas na maternidade podem influenciar depressão pós-parto

1/20/2026
Estudo feito por pesquisadoras francesas mostra que o comportamento da equipe médica considerado inadequado pelas pacientes, antes e depois do parto, pode estar relacionado ao aparecimento da doença. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A depressão pós-parto atinge cerca de 2 em cada 10 mulheres na França e 25% no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Tristeza persistente, dificuldade para criar vínculo com o bebê recém-nascido, falta de apetite, distúrbios do sono, cansaço e problemas de concentração são alguns dos sinais que devem alertar as mães. Esse risco aumenta em função de fatores ambientais, como gravidez difícil, isolamento ou más condições de vida, mas também está relacionado ao atendimento no hospital durante e após o parto. É o que mostra um estudo inédito divulgado em novembro, conduzido pelas cientistas francesas Marianne Jacques, do Inserm (Instituto Nacional de Pesquisa Médica), enfermeira obstetra no hospital Erdre e Loire, na região centro-oeste da França, e Camille Le Ray, professora de ginecologia e obstetrícia na maternidade parisiense de Port Royal, no 6º distrito da capital. As duas pesquisadoras analisaram como experiências negativas vivenciadas nas maternidades francesas influenciaram o aparecimento da depressão pós-parto. A pesquisa, publicada em novembro na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, também propõe medidas para prevenir o transtorno psíquico nas mães. Segundo o estudo, cerca de 25% das mães seriam afetadas pelo transtorno. A conclusão é baseada em uma análise de dados recolhidos dois meses após o parto de um grupo de pacientes, que participou de uma pesquisa nacional perinatal, em 2021. “Essas pesquisas nacionais são realizadas há mais de 30 anos, a cada cinco ou seis anos. Elas incluem, durante uma semana, todas as mulheres que deram à luz e aceitaram participar, em toda a França”, diz Marianne. “A última edição é de março de 2021 e contou com a participação de mais de 12 mil mulheres. A novidade é que as participantes responderam a um novo questionário dois meses após o parto”. Nesse questionário, 1.888 mulheres relataram gestos, observações e práticas da equipe médica e hospitalar que, por diferentes razões, geraram desconforto ou mal-estar durante e após o parto. Outra série de perguntas propostas pelas pesquisadoras oito semanas após o nascimento do bebê, relacionadas exclusivamente à depressão pós-parto, revelou que 17% das mães tinham sintomas da síndrome. Há mais de dez anos trabalhando em um hospital, a cientista francesa vive na prática as eventuais dificuldades enfrentadas pelas gestantes e suas famílias. “Tentamos manter nossa atividade clínica o máximo possível, já que nossas pesquisas são baseadas nessa experiência. O objetivo, justamente, é poder aplicá-las de forma prática para beneficiar as mulheres e as famílias.” 'Senti a dor do corte' Sophie, 45 anos, teve um parto normal há 11 anos em uma maternidade parisiense. Quando as contrações ficaram muito fortes, recebeu anestesia. “A anestesia só funcionou de um lado, eu senti muita dor. Avisei o anestesista e a equipe, mas o parto continuou”, conta. A francesa Dadi integra a Associação Femmes Africaines de la Plaine (Mulheres Africanas da Plaine), localizada em Saint-Denis, perto de Paris. Ela relatou à repórter Charlie Dupiot, do programa Priorité Santé da RFI, o trauma vivido após uma episiotomia — uma incisão feita na região do períneo, entre a vagina e o ânus, para ampliar o canal de parto e facilitar a saída do bebê. A anestesia não fez efeito e Dadi sentiu o corte e a sutura. “Três semanas depois, o corte ainda não tinha cicatrizado. Foi traumatizante para mim, eu não podia me sentar, eram dores muito fortes.” Apesar de o estudo não detalhar os problemas que envolvem individualmente as situações que incomodaram as mulheres ouvidas na pesquisa, como foi o caso de Sophie e Dadi, obter essas informações é uma das metas da equipe de pesquisadoras. “Não sabemos o que está...

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Cientistas franceses desenvolvem vacina para evitar reações alérgicas graves

1/13/2026
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50% da população mundial terá algum tipo de alergia até 2050. Algumas delas geram reações grave e podem provocar um choque anafilático, potencialmente fatal. Para preveni-lo, uma equipe de cientistas franceses testou, com sucesso, uma vacina terapêutica contra as alergias. O resultado foi publicado recentemente na revista científica Sciences Translacional Medicine. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O estudo durou sete anos e foi realizada por uma equipe de cientistas franceses. De acordo com o cientista Pierre Bruhns, do Instituto Pasteur em Paris, que conduziu a pesquisa ao lado do pesquisador Laurent Reber, as alergias respiratórias ou alimentares são desencadeadas por um mecanismo de “reconhecimento” entre os alérgenos e proteínas presentes na superfície das células, conhecidas como IgE, ou imunoglobulinas E. Esses anticorpos são produzidos por células do sistema imunológico chamadas plasmócitos. A maior parte dos IgE se fixa nos mastócitos — células do sistema de defesa presentes na pele — e nos basófilos, um tipo de leucócito, ou glóbulo branco, existente no sangue. A reação entre os alérgenos e os IgE provoca as alergias, que podem ser localizadas ou generalizadas, gerando um choque anafilático. “A vacina possibilita ao indivíduo, ou ao organismo que estamos imunizando, a criação de anticorpos dirigidos contra as IgE e o bloqueio dessas IgE, antes que elas consigam se fixar nos mastócitos ou basófilos. Esse é o princípio da vacinação”, diz. “Então, se o paciente é alérgico a várias substâncias, a vacina poderá protegê-lo de vários alérgenos de uma vez.” Atualmente, o único tratamento que previne as reações graves é o omalizumabe, que fornece ao paciente anticorpos para bloquear as IgE. O medicamento existe há 20 anos e é injetado no hospital. O efeito é longo, garantindo o conforto do paciente. Mas a 'logística' é complexa, sobretudo para pessoas que vivem longe dos estabelecimentos. “Em vez de fazer as pessoas irem ao hospital para tomar uma injeção desse anticorpo, propomos vaciná-las com duas ou três doses e, após dois ou três anos — talvez até mais — elas vão ficar livre do medicamento e continuarão protegidas das alergias.” Sem prevenção e, em caso de choque anafilático, o único tratamento possível contra a reação alérgica grave é a injeção de adrenalina, lembra o pesquisador do Instituto Pasteur. “O choque anafilático provoca uma parada cardiorrespiratória, e a adrenalina faz com que o pulmão volte a funcionar normalmente. Ela funciona muito bem quando é administrada precocemente, mas, se for dada tarde demais, o paciente pode sofrer uma alergia grave, até mortal”, ressalta. Terapia foi testada em camundongos No laboratório, durante os sete anos de pesquisa, a nova terapia foi testada em camundongos. “O camundongo é resistente ao desenvolvimento de alergias. O modelo que podemos utilizar em laboratório para que eles se tornem alérgicos não é, em regra geral, dependente da ação das imunoglobulinas E, como nos humanos”, explica Pierre Bruhns. A equipe precisou, então, adaptar o sistema imunológico dos animais para desencadear reações alérgicas semelhantes às que ocorrem em humanos e provar a eficácia da vacina terapêutica. “Injetamos IgE humanas diretamente nos camundongos para sensibilizá-los, como nos humanos. Em seguida, vacinamos os camundongos e injetamos os alérgenos, que vão interagir com as IgE. É como se estivéssemos imitando a reação alérgica no homem, sem que o camundongo precisasse produzir sua própria imunoglobulina E.” Nos animais, as vacinas forneceram proteção de 100% contra alergias durante um ano, o que equivale à metade da vida de um camundongo. A expectativa é que, no homem, essa proteção dure mais tempo — até dez anos —, algo que só poderá ser estabelecido após os ensaios clínicos. Mas, antes, será feita a análise da toxicologia da vacina e de seus possíveis efeitos colaterais, como exige a regulamentação europeia. Essa...

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Conheça os sintomas da andropausa, a ‘menopausa masculina’, marcada pela queda da testosterona

1/6/2026
A andropausa é um período caracterizado pela redução da secreção de testosterona no homem e traz sintomas como queda da libido, cansaço, aumento do risco cardiovascular, irritabilidade e ganho de peso. Ao contrário da menopausa, que atinge todas as mulheres a partir dos 45 anos, a andropausa afeta uma proporção menor de homens mais velhos, explica o urologista François Desgrandchamps, professor da Universidade Paris Cité e chefe do setor no Hospital Saint-Louis, situado na capital francesa. Segundo ele, a andropausa tem consequências diretas na saúde e no bem-estar masculino, mas os sintomas podem ser atenuados. “A andropausa é secundária ao envelhecimento do organismo e dos testículos, que secretam menos testosterona, mas também decorre do envelhecimento de todos os estímulos envolvidos na secreção dos testículos, a partir do encéfalo.” O encéfalo é uma das áreas cerebrais envolvidas na produção da testosterona. O envelhecimento e a diminuição do hormônio masculino também geram ganho de peso. “A gordura se opõe à testosterona e a transforma em estriol, um hormônio feminino, e secreta também a leptina, substância que vai bloquear a produção da testosterona pelos testículos. Tudo isso faz com que a testosterona diminua com a idade, a partir dos 50 anos.” De acordo com o urologista francês, seus pacientes nessa faixa etária buscam ajuda por outros problemas, como disfunções sexuais ou depressão. Esses sintomas tornam necessária a dosagem de testosterona para obter um diagnóstico preciso. Falta de dados epidemiológicos Segundo ele, não há dados epidemiológicos sobre a ocorrência da andropausa, e isso dificulta a análise do fenômeno. "Não existem dados e esse é justamente o problema da andropausa, que, além de ser um tabu, é simplesmente desconhecida", explica. "Não sabemos qual é a taxa normal de testosterona no sangue de um homem a partir dos 50 anos, que no laboratório está estipulada entre 2 e 20 miligramas por mililitro. Se o paciente estiver com 5, é normal, mas um pouco baixo. Por isso não sabemos com exatidão, biologicamente, qual é a frequência da andropausa", diz. De acordo com o especialista, entre 60% e 70% dos homens passam pela andropausa, com sintomas. "Temos sintomas típicos como uma diminuição da libido e das ereções, mas o questionário envolve outras oito questões, e se o paciente responder ‘sim’ a mais de três ou quatro delas, isso caracteriza a andropausa. É o que chamamos de score ADAM", explica o urologista. Além das dificuldades sexuais, os sintomas da andropausa incluem falta de energia, perda de força muscular, resistência ao esforço, redução da estatura, perda do gosto pela vida, tristeza e irritabilidade. A diminuição da capacidade de trabalho e ter muito sono depois das refeições também são sinais de alerta. Como eles são pouco específicos, muitos homens não procuram um médico, aos poucos se isolam e são tratados indevidamente como se tivessem desenvolvido uma depressão, alerta o especialista. O problema é que os antidepressivos podem dificultar as ereções. "É uma espécie de espiral negativa que faz com que os homens se isolem na própria tristeza, sendo que, se tomassem a testosterona, voltariam a viver normalmente." Andropausa ainda é tabu O médico francês orienta dar a testosterona, que pode ser administrada em forma de creme ou injeções, durante seis meses e avaliar os benefícios. Se uma melhora dos sintomas é observada, a terapia é mantida e a andropausa confirmada. O francês Frédéric, de 57 anos, demorou para procurar um urologista. Hoje ele faz o tratamento de reposição hormonal, mas reconhece que as dificuldades sexuais geradas pela andropausa são um tabu para muitos homens. "A virilidade para um homem é importante. Este é um tabu que precisa ser quebrado, mas, ao mesmo tempo, eu não estou pronto para assumir essa imagem de um homem que está chegando tranquilamente à velhice. Não estou pronto para isso", diz. "Se eu posso dar um conselho, é o de não hesitar em falar com um...

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Retrospectiva 2025: os melhores momentos do programa Saúde em Dia deste ano

12/30/2025
Confira algumas das reportagens do programa Saúde em Dia que foram ao ar em 2025. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Quais são os efeitos do uso indiscriminado das redes sociais em crianças e adolescentes. Diabolizar plataformas é a solução para protegê-los da violência online? Vários países, entre eles a França, vêm adotando medidas para controlar o acesso às redes e proteger crianças e adolescentes. A pedopsiquiatra francesa Catherine Jousselme, uma das maiores referências na área, é autora de diversos livros e estudos sobre a questão e dirigiu vários centros infantojuvenis no país ao longo de sua carreira. Para ela, não existe só uma solução, mas várias, que envolvem a escola, os pais, governos e os profissionais da saúde.“Essas ferramentas causam dependência. Sabemos que nosso cérebro tem um circuito de tratamento da imagem que é bem mais rápido do que o circuito que gerencia a linguagem e a reflexão”, avalia. O consumo ininterrupto do conteúdo gerado pelas redes torna os jovens presas mais fáceis. Esse risco cresce na adolescência, um período marcado por transformações e incertezas. Casos de câncer explodem no mundo No início do ano, dados apresentados pelo Instituto francês Gustave Roussy mostraram que os casos de câncer entre jovens de 20 a 40 anos vêm crescendo nos últimos 30 anos. O hospital, situado em Villejuif, nos arredores de Paris, é um dos maiores centros de combate ao câncer do mundo. Estudos revelam que, entre 1990 e 2019, houve um aumento de 79,1% de certos tipos de câncer em pessoas com menos de 50 anos, em todo o mundo. Os médicos preveem uma alta de 12% de novos diagnósticos e mortes causadas pela doença nessa faixa etária entre 2022 e 2050.Quais seriam os fatores de risco? Poluição, consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo? “Não entendemos exatamente o porquê desse aumento, mas há pistas. Alguns estudos mostram que pode haver uma relação entre o consumo de ultraprocessados e o câncer. Mas isso não significa que haja necessariamente uma causalidade, ou seja, uma relação de causa e efeito”, diz o oncologista Fabrice André, diretor de pesquisa do Instituto Gustave Roussy. Francês cria medicamento contra Mal de Parkinson O farmacêutico francês Guillaume Brachet descobriu que tinha o mal de Parkinson aos 30 anos. Ele criou um medicamento, já patenteado, que poderá frear a evolução da doença. O jovem cientista contou sua história ao programa e no livro Parkinson aos 30 anos, lançado em março na França. “Vamos ter que demonstrar o impacto significativo do tratamento nos parâmetros da doença e traduzi-lo em algo mensurável e padronizado, como um biomarcador, para provar o efeito dessa combinação”, explicou. Os testes com humanos estão previstos para 2026, e o tratamento poderá estar disponível em 2030. Remédios em formato de doce O farmacêutico francês Maxime Annereau trabalha no Instituto Gustave Roussy, de combate ao câncer. Ele adapta as doses, o sabor e a forma dos medicamentos usados por crianças e adolescentes com a doença e usa impressoras 3D para fabricar os remédios na farmácia do centro. Após vários testes, os pediatras do hospital pediram ao farmacêutico que melhorasse o sabor do Bactrim, um medicamento que associa dois antibióticos e é utilizado em larga escala pelas crianças que têm câncer e passam por quimioterapia. “Eles nos falaram que o resultado foi bom, mas poderia ser ainda melhor. O ‘melhor’ demorou oito meses para ficar pronto. Como somos franceses, imaginamos um jeito para disfarçar o gosto do remédio e decidimos fazer um macaron”, explicou. O macaron é um doce com formato redondo, massa feita à base de amêndoas, açúcar e clara de ovos. Estudante francês de Medicina denuncia racismo Uma das entrevistas foi com o estudante francês de Medicina Miguel Shema, que está no 5º ano da Faculdade de Iasi, na Romênia. Durante seus estágios de observação, Miguel passou a questionar a maneira como os pacientes negros e de outras etnias são atendidos nos hospitais e...

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Retrospectiva: os melhores momentos do programa Saúde em Dia de 2025

12/23/2025
Para encerrar 2025, selecionamos as melhores reportagens e entrevistas exibidas ao longo do ano. No hospital Gustave Roussy, nos arredores de Paris, as novas técnicas de medicina nuclear já garantem mais precisão no diagnóstico e no tratamento, beneficiando diversos pacientes. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O centro pretende expandir esses procedimentos para vários tipos de tumores malignos, como os da próstata, da mama e do sistema digestivo, explicou Désirée Deandreis, especialista em medicina nuclear aplicada à oncologia e chefe do setor no instituto. “A ideia é testar novas moléculas para vários tipos de câncer. Por ora, os tratamentos se restringem aos cânceres raros e de próstata. Começamos também a utilizá-los em cânceres de mama e, neste inverno europeu, vamos testá-los nos cânceres digestivos. Queremos também detectar doenças que ainda não contam com opções terapêuticas. A meta é desenvolver pesquisas e encontrar moléculas eficazes.” Sedentarismo: problema de saúde pública O sedentarismo tornou-se um problema de saúde pública, e o mais preocupante é que a prática regular de atividade física não elimina os riscos associados ao hábito de passar várias horas sentado por dia. Esse foi o tema do nosso papo com a endocrinologista e fisiologista francesa Martine Duclos, chefe do setor de medicina do esporte do Hospital Universitário de Clermont-Ferrand, no centro da França. “Quando estamos sentados, os músculos das pernas não se contraem, e o fluxo do sangue diminui. Ele se mantém em certo nível, já que é necessário levar oxigênio aos músculos, mas é reduzido, o que diminui a pressão exercida nas paredes das artérias.” Vírus da Covid-19 afeta o cérebro Um estudo realizado no Instituto Pasteur, em Paris, revelou que o vírus SARS-CoV-2, além de atingir o cérebro, pode permanecer ativo no tronco cerebral por até 80 dias após a infecção. A descoberta, feita pelo pesquisador brasileiro Guilherme Dias de Melo e uma equipe de cientistas do instituto, identificou alterações em mecanismos cerebrais relacionados à dopamina, neurotransmissor envolvido em doenças neurodegenerativas como o mal de Parkinson. A presença do vírus da Covid-19 no cérebro está associada a sinais de depressão, distúrbios de memória e ansiedade, além de mecanismos que podem levar ao desenvolvimento da Covid longa. “Fizemos um estudo de longo prazo, dez semanas após o fim da fase aguda. E vimos que, durante todo esse tempo, os animais apresentavam sintomas, não os respiratórios clássicos da Covid-19, mas relacionados ao sistema nervoso central, como ansiedade e perda de memória. Mesmo após 80 dias, o vírus ainda estava presente”, explica Guilherme. Casos de chikungunya crescem na França A chikungunya é uma doença que vem crescendo rapidamente na França, com a proliferação do mosquito-tigre. Esse aumento já era esperado após meses de epidemia na Ilha da Reunião, no oceano Índico, e com a chegada do verão europeu em junho, que favorece a reprodução do inseto. Mas o rápido avanço da doença preocupa as autoridades francesas. Segundo a infectologista Émilie Mosnier, especialista em saúde pública que atua no hospital universitário de Saint-Pierre, na Ilha da Reunião, as condições climáticas, aliadas à densidade populacional e à quantidade de mosquitos, determinam a intensidade das contaminações. “É um risco cada vez maior e deve ser enfrentado coletivamente. A população precisa ser informada para evitar a reprodução do mosquito em áreas residenciais, reduzindo o risco de epidemias de chikungunya, mas também de dengue e zika.” Café pode ajudar a prevenir demência? A neurocientista portuguesa Luísa Lopes, pesquisadora do Instituto Gulbenkian de Ciência Molecular e da Faculdade de Medicina de Lisboa, faz parte do grupo de especialistas que busca entender como a cafeína atua na saúde dos neurônios – e os resultados são surpreendentes. Ela melhora o desempenho cognitivo e diminui a inflamação. “Houve há pouco tempo estudos de ressonância magnética...

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Plataforma de Pesquisa em Saúde promoverá cooperação científica entre França e Brasil

12/9/2025
A França e o Brasil lançaram oficialmente, em outubro, em Fortaleza (CE), a Plataforma Internacional de Pesquisa em Saúde Global França-Brasil, conhecida pela sigla Prisme. A iniciativa integra a temporada do Ano do Brasil na França e envolve os governos, as agências de saúde, instituições e pesquisadores dos dois países. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O objetivo da iniciativa é transformar a pesquisa em ações concretas para a saúde pública, além de promover trocas científicas sobre doenças como tuberculose, hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis. Uma das metas é colocar em prática projetos na Guiana Francesa e no Amapá, onde França e Brasil compartilham uma fronteira. A ANRS, agência francesa de pesquisa sobre Aids e hepatites virais, que também monitora doenças infecciosas emergentes, está diretamente envolvida no projeto. De acordo com Marion Fanjat, representante do departamento de estratégias e parcerias da ANRS, um dos focos do Prisme é agregar todos os parceiros nas decisões, ultrapassando as colaborações binacionais. “Queremos que todos possam se sentar em torno da mesma mesa”, diz. “A força da plataforma é reunir pesquisadores, instituições, representantes de programas nacionais de pesquisa, sociedade civil e associações de pacientes, além de organizações internacionais e financiadores”, explicou a representante da ANRS, sediada na região parisiense. “Após o lançamento oficial, os parceiros agora trabalham para definir um plano de ação, as prioridades nas pesquisas e ações concretas que serão operacionalizadas. Por enquanto, somos um consórcio de parceiros fundadores e estamos decidindo o que vamos fazer em termos operacionais nos próximos meses”, diz. Saúde pública A representante da agência francesa lembra que a Guiana Francesa e o Brasil compartilham muitos “desafios de saúde pública”, incluindo a gestão de epidemias pontuais, como a da dengue. A doença já é transmitida localmente na França há alguns anos, com a propagação do mosquito-tigre, facilitada pelo aquecimento global. “Faz todo o sentido termos parceiros da Guiana Francesa, e estamos muito satisfeitos de poder contar com o Instituto Pasteur da Guiana entre os membros fundadores. Já temos alguns projetos em comum em andamento, que envolvem temas como saúde sexual. Mas muitos outros serão desenvolvidos sobre temas muito importantes na área amazônica, como as arboviroses”, explica Marion Fanjat. Outro projeto visa criar uma rede comum de análise das águas residuais entre a França e o Brasil para prevenir epidemias, como a da Covid-19. “Esse é um grande projeto que deve ser desenvolvido nos próximos anos entre a equipe da Guiana e da França. Toda essa área amazônica está muito envolvida nessas pesquisas com o Brasil”, explica. Neste contexto, a plataforma poderá contar com o apoio do centro franco-brasileiro pela biodiversidade amazônica, que promoverá a colaboração na área da saúde entre a Guiana Francesa e os estados brasileiros próximos, como Amapá, Amazonas e Roraima. A prevenção e a gestão das doenças infecciosas também ocupam papel preponderante na plataforma. “Ela vai permitir a promoção de pesquisas de preparação, prevenção e respostas a epidemias, além de avaliar o impacto das mudanças climáticas na saúde humana, na segurança alimentar e nutricional”, destaca. Transformar a pesquisa em ações concretas para a saúde pública e promover o intercâmbio entre pesquisadores também estão entre as prioridades da cooperação. “Já existem bolsas de mestrado ou doutorado, propostas pela Embaixada da França, ou estágios na área da saúde. São parcerias entre o Ministério da Saúde do Brasil e a Embaixada da França”, conclui.

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Alimentação, higiene, uso de antibióticos: como evitar a resistência microbiana

12/2/2025
De acordo com o relatório anual da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a resistência microbiana, publicado em outubro, um sexto das infecções bacterianas confirmadas em laboratório e mais comuns em humanos é resistente aos antibióticos. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Vários fatores contribuem para esse cenário, explicou o infectologista francês Sylvain Diamantis, membro da Sociedade de Doenças Infecciosas de língua francesa, que atua no hospital de Melun, na região parisiense. Ele cita, por exemplo, a prescrição de antibióticos para aumentar a massa muscular de bovinos e frangos de corte na agroindústria, o que facilita o aparecimento de micróbios resistentes. “A comunidade científica é claramente contra o uso de antibióticos como fator de crescimento em bovinos e aves”, diz o infectologista. As leis europeias proíbem a prescrição de antibióticos em animais que geram resistência nos humanos. “É uma questão que está atualmente no centro dos debates. O objetivo é que essas leis sejam adotadas em todo o planeta, para que o mundo humano e animal seja obrigado a respeitar as normas de prescrição em antibioterapia. A resistência microbiana é um fenômeno de saúde global, um reflexo da sociedade como um todo.” A França é um país que tradicionalmente prescreve muitos antibióticos, e isso se deve à sua própria história. No século XIX, o cientista Louis Pasteur, que hoje empresta seu nome ao famoso instituto francês com o qual o Brasil mantém várias parcerias, foi um pioneiro da microbiologia. Pasteur descobriu que as bactérias, presentes em toda parte no mundo e no organismo, podem também provocar doenças. Seus estudos estão na origem da adoção de hábitos de higiene simples, como lavar as mãos, essenciais na luta contra a propagação dos micróbios nocivos. Com a invenção da penicilina em 1928 por Alexander Fleming, uma das maiores descobertas da Medicina, o combate às bactérias ganhou outra dimensão social. “Na época, pensávamos que um ‘bom micróbio era um micróbio morto’, e os antibióticos começaram a ser muito usados”, lembra o infectologista francês. Segundo ele, o fato de a França ter grandes empresas do setor farmacêutico, como a Sanofi, também contribuiu para a popularização do uso das moléculas e o aumento das prescrições. O contexto social francês impulsionou o consumo e, ao longo das décadas, gerou um aumento progressivo da resistência bacteriana, explica o especialista francês. Mas a taxa está em diminuição há alguns anos, como resultado do lançamento de campanhas que alertam para o uso de antibióticos sem indicação precisa e da incorporação gradual de regras rígidas de higiene nos hospitais franceses, reforçadas após a pandemia de Covid-19, em 2020. “A França tem um nível alto de higiene nos hospitais, com o uso de produtos hidroalcoólicos que interrompem a transmissão das bactérias entre os profissionais de saúde nos estabelecimentos. Graças a isso, diminuímos a nossa taxa de resistência.” Mas, apesar das precauções, diz, os índices nos estabelecimentos franceses ainda permanecem elevados devido à circulação de pacientes de vários lugares do mundo, que às vezes carregam cepas bacterianas sofisticadas. Precisa mesmo de antibiótico? Seja no hospital ou em casa, uma das maneiras de lutar contra o aparecimento das bactérias super-resistentes é, obviamente, não ficar doente. Para isso, a adoção coletiva de hábitos básicos de higiene, como a lavagem das mãos, além de manter o calendário vacinal em dia, é essencial. De acordo com o infectologista, também é importante deixar de utilizar moléculas que geram mais resistência, como as cefalosporinas de terceira geração e as fluoroquinolonas, ambas de largo espectro, ou seja, que tratam diferentes tipos de infecções. Na França, esses dois antibióticos são prescritos principalmente por clínicos gerais, diz Sylvain Diamantis. “O grande desafio da estratégia nacional contra a resistência antimicrobiana é não prescrever antibióticos sem necessidade. Em estudos que fizemos,...

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Conheça o museu do hospital psiquiátrico francês Sainte-Anne, que promove a arte como terapia

11/25/2025
O acervo do Museu de Arte e História do Hospital Psiquiátrico Sainte-Anne, no 14° distrito de Paris, reúne cerca de 1.800 obras de 196 artistas-pacientes de vários países, incluindo o Brasil. As produções, que vão do século 19 aos dias de hoje, foram doadas por psiquiatras, instituições, famílias de pacientes e artistas. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Muitas criações foram produzidas nos ateliês de arte coletiva do hospital, explica a psiquiatra francesa Anne Marie-Dubois, responsável científica do museu. Ela iniciou sua carreira no estabelecimento nos anos 1990 e logo se interessou pelas atividades do Centro de Estudo da Expressão — espaço que fazia o elo entre a arte e a terapia no tratamento dos transtornos mentais. A médica francesa passou então a organizar a coleção produzida pelos pacientes e os ateliês de arte do centro psiquiátrico. A constituição do acervo do museu do hospital francês foi um desafio, lembra. “Há obras que datam do fim do século XIX que nós ou médicos de outras épocas encontramos em sótãos e outros locais ‘improváveis’, incluindo as próprias casas de alguns psiquiatras”, explica. A partir dos anos 1930, conta, o hospital Sainte-Anne se tornou um ponto de encontro entre psiquiatras, psicanalistas e artistas surrealistas, como André Breton. Muitas das obras, inspiradas na psicanálise, foram realizadas no próprio estabelecimento. Várias das produções expostas hoje no museu são uma herança da Exposição Internacional de Arte Psicopatológica. A mostra, aberta ao público, foi organizada em 1950, com obras de 17 países. No mesmo ano, aconteceu também o primeiro congresso mundial de psiquiatria em Paris. “Os médicos da época, como Jean Delay e Robert Volmat, estavam a par das práticas de expressão artística no exterior. No Brasil e em outros países, já existiam ateliês para os pacientes”, conta a psiquiatra francesa. O especialista francês Robert Volmat, conta, publicou um livro que traz cartas trocadas com psiquiatras do mundo inteiro, incluindo o brasileiro Osório César, um dos precursores no trabalho de arte com pacientes de hospitais psiquiátricos. Ele é uma referência mundial, assim como a célebre psiquiatra Nise da Silveira, pioneira nos tratamentos humanizados, incluindo os de expressão artística. Na década de 1920, Osório César coordenava as produções artísticas dos pacientes do Hospital do Juquery, em São Paulo, que tem um museu nos mesmos moldes do Sainte-Anne, em Paris. “Temos cartas trocadas entre esses dois psiquiatras sobre as produções artísticas de pacientes brasileiros, que foram apresentadas nessa exposição”, conta a psiquiatra francesa. Patrimônio Nacional Depois da mostra nos anos 1950, várias doações foram feitas ao hospital, inclusive por psiquiatras brasileiros, enriquecendo aos poucos o acervo do museu francês. Mas o local só se consolidou como estabelecimento cultural muitos anos depois, quando Anne-Marie Dubois pôde se dedicar exclusivamente à organização do inventário, reserva e documentação, e o museu passou a organizar pelo menos duas exposições anuais abertas ao público. Em 2016, finalmente o espaço foi reconhecido como “Museu da França” pelo Estado francês e considerado patrimônio cultural nacional, tornando as obras do acervo inalienáveis, ou seja, não podem ser transferidas, vendidas, doadas ou cedidas. A psiquiatra francesa lembra que uma das missões do museu é derrubar o estigma da “loucura” dos pacientes psiquiátricos. “Quando trabalhamos há muitos anos com arte e terapia, sabemos que há pacientes que produzem obras que não são interessantes e outros cujas produções não têm necessariamente o objetivo de projetar suas interrogações e angústias, mas de reconstituir seu mundo”, diz Anne-Marie Dubois. “Claro que há pacientes que exprimem situações que são angustiantes, mas isso não é sistemático. É muito importante que as pessoas venham ao museu com o espírito livre de qualquer tipo de interpretação, sem questionar qual a doença que os pacientes tinham.” Hoje, além...

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Estímulos ambientais podem retardar sintomas de Alzheimer, mostra estudo francês

11/18/2025
Uma pesquisa feita pela equipe da neurocientista francesa Laure Verret mostrou que as interações sociais reativam os neurônios de camundongos que desenvolveram Alzheimer. A socialização também preserva parcialmente a memória e normaliza o comportamento dos animais. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O estudo realizado no Centro de Pesquisas sobre a Cognição Animal da Universidade de Toulouse, no sudoeste da França, descreveu como os mecanismos cerebrais afetados pelas doenças neurodegenerativas podem ser reativados pelos estímulos ambientais. A influência do meio ambiente na perda cognitiva é um tema que já vem sendo estudado há décadas pelos cientistas, explica Laure Verret, e serve de base para novas pesquisas. “O estímulo cognitivo, social e sensorial esconde as deficiências de memória desses animais. Eles estão doentes, têm problemas cerebrais, mas, apesar disso, não demonstram problemas comportamentais. Sempre tive em mente uma questão que, para mim, é fundamental: entender o que acontece dentro da cabeça dos camundongos quando estão nesse ambiente rico em interações, e como isso ajuda a combater as doenças neurodegenerativas e a manter a capacidade cerebral.” Durante a experiência, a cientista francesa buscou detalhar os mecanismos neurobiológicos que eram influenciados pela socialização e que protegem a memória. A Ciência já sabe que pessoas curiosas, que praticam exercícios físicos e têm uma vida social satisfatória desenvolverão sintomas de Alzheimer mais tarde, mesmo tendo sido diagnosticadas com a doença. Isso mostra que nosso cérebro é capaz de adiar a aparição dos sintomas. “Essa capacidade é chamada de reserva cognitiva. Este é um conceito dos anos 1980, que também é observado nos camundongos. Em nosso estudo buscamos detectar as modificações no cérebro dos animais que melhoravam seu comportamento, após serem expostos a estímulos. Talvez esses mecanismos sejam idênticos nos humanos que tenham uma vida estimulante o suficiente para prevenir as disfunções cognitivas, relacionadas às doenças neurodegenerativas, como Alzheimer”, diz Laure. Cerca de 12 camundongos participaram da experiência. Os animais, que nunca tinham se encontrado antes, tinham déficits cognitivos, mas ainda não estavam em um estado avançado da doença de Alzheimer. Eles foram colocados dentro de uma gaiola durante dez dias, com vários tipos de objetos que eram trocados periodicamente. Em seguida, voltaram para seus espaços individuais no laboratório, onde ficaram por um período de 20 dias. O objetivo era analisar quanto tempo duravam os efeitos benéficos das interações. “Percebemos que os déficits cognitivos nesses camundongos tinham desaparecido, quando eram comparados com outros animais que não tinham tido as mesmas experiências ‘lúdicas’.” Os camundongos foram capazes de reconhecer, por exemplo, outros animais que haviam participado da experiência. Esse comportamento sugere uma restauração do hipocampo, que é uma estrutura cerebral essencial para a memória e um dos alvos da doença de Alzheimer. Tratar a memória sem medicamentos Depois da experiência, a questão que Laure Verret e sua equipe tentaram responder foi: o que aconteceu no cérebro dos animais? A análise dos cientistas se concentrou nos chamados neurônios parvalbumina, ou PV, do hipocampo. Esses neurônios, explica a cientista, são inibidores, ou seja, controlam a atividade dos outros. “Eles são extremamente importantes, a tal ponto que são chamados de ‘maestros’ do cérebro. São eles que decidem quando os outros neurônios devem ser ativados ou não. Se falham, como é o caso na doença de Alzheimer, vão desequilibrar toda a atividade cerebral.” A hipótese dos cientistas franceses era de que tratar esses neurônios, reestabelecendo sua função normal, melhoraria a memória. A boa saúde dos neurônios PV, lembra Laure Verret, também depende das redes perineuronais, moléculas que funcionam como uma rede de proteção das conexões neuronais. Neste contexto, para confirmar a relação de...

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Maqueiros de hospital francês criam dispositivo inédito para transporte de pacientes com câncer

11/11/2025
Invenção que fixa suportes de soro a cadeiras de rodas gera ganho de tempo, conforto e segurança nos deslocamentos dos pacientes atendidos no instituto francês Gustave Roussy, situado em Villejuif, nos arredores de Paris. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A equipe de maqueiros do hospital francês realiza diariamente cerca de 470 deslocamentos de pacientes com câncer. O transporte de macas e cadeiras de rodas entre quartos, blocos operatórios e salas de exames pontua a rotina do instituto, um dos maiores centros de combate à doença do mundo. O trabalho dos maqueiros é essencial para garantir que os tratamentos e operações sejam feitos a tempo e em boas condições. Um dos maiores desafios consiste em transferir os pacientes da maca para a cadeira de rodas com conforto e segurança. Os deslocamentos geram riscos, incluindo quedas ou demora na transferência de infusões intravenosas, que podem causar dor. Para amenizar essas dificuldades, os técnicos do instituto francês, que recebe cerca de 55 mil pacientes por ano, criaram um dispositivo em parceria com os maqueiros que se adapta a diferentes tipos de suporte de soro e cadeiras de rodas, graças a um grampo de fixação. Essa solução simples e de baixo custo garante que o manuseio das bolsas de soro e das infusões seja mais seguro. A equipe de 55 maqueiros do instituto francês é dirigida por Jean-Marie Nebbak. A invenção, diz, melhorou o cotidiano dos pacientes, mas também dos profissionais, que temem menos incidentes. “Essa é uma ideia que os maqueiros já tinham em mente faz tempo", explica Nebbak. "Eles sempre falavam dessas dificuldades durante nossas reuniões, e eu mesmo vivi essas situações no dia a dia", recorda. "A transferência das bolsas de soro, das seringas e das infusões não é assim tão simples. Foi então que, conversando com os técnicos, pensamos na possibilidade de criar um sistema que pudesse fixar o suporte de soro do paciente durante o transporte”, frisa. Na época, não havia um produto similar no mercado, o que levou os técnicos de diferentes áreas do instituto a se mobilizarem e propor diferentes soluções viáveis do ponto de vista financeiro e operacional. O projeto foi então oficialmente criado em 2016 e o primeiro protótipo apareceu em 2019. A adoção do dispositivo definitivo só aconteceu após a consulta de diversos setores no hospital e da realização dos primeiros deslocamentos para testar a invenção e eventuais dificuldades, como o uso do elevador do hospital, por exemplo. "Os pacientes também ficaram satisfeitos, já que 100% deles afirmaram que se sentem mais autônomos. Por exemplo: se a família vem visitá-lo no hospital e deseja acompanhá-lo até a cafeteria ou à livraria, e o paciente estiver com uma infusão intravenosa, para poder sair do quarto será necessário aguardar uma enfermeira e pedir a ela que transfira o suporte do soro e as infusões da cama para a cadeira de rodas", descreve. "Com o nosso sistema, basta fixar o suporte diretamente na cadeira e sair por aí!", comemora Jean-Marie Nebbak, lembrando que 'empresta' diariamente cadeiras que estão adaptadas ao novo sistema para facilitar o cotidiano dos pacientes. A invenção, que foi patenteada, agora será produzida em escala industrial após a conclusão de uma parceria com a empresa francesa Acime, que fabrica móveis para hospitais e os exporta para mais de 40 países. A patente inclui a adaptação do mecanismo às macas, cadeiras de rodas e carrinhos para bebês ou crianças. Segundo Jean-Nebbak, adaptar o mecanismo à demanda da ala pediátrica do hospital está na lista de prioridades da equipe. "Evitamos transferir as infusões" A maqueira Yamina Rekkas, que trabalha no hospital desde 2018, diz que a utilização do grampo mudou seu cotidiano. Ela trabalha na regulação do transporte sanitário do instituto e participou, "com orgulho", frisa, dos testes com o dispositivo. “Toda vez que acompanhamos um paciente, e que temos muitas infusões, é um pesadelo para os maqueiros. Estamos o tempo todo...

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