
Convidado - A viagem rumo ao oeste de Babetida Sadjo
RFI
De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.
Episodes
Raquel Freire: “Esta luta pela liberdade, tanto em Portugal como em África, estava por contar-se.”
5/1/2026
“Mulheres de Abril” é o filme da realizadora Raquel Freire que celebra as mulheres que, em África e Portugal, lutaram pela liberdade, contra o colonialismo e contra a ditadura. O documentário teve ante-estreia no Festival IndieLisboa e brevemente vai estar nas salas de cinema portuguesas.
Portugal viveu 48 anos de ditadura salazarista. Foi a ditadura mais longa da Europa. O regime terminou em 1974 com a revolução de 25 de Abril.
O documentário “Mulheres de Abril”, da realizadora Raquel Freire, celebra as mulheres que participaram activamente na luta antifascista e anticolonialista e que, até agora, estavam esquecidas na história.
Ana Maria Cabral, Julieta Rocha, Helena Neves, Isabel do Carmo, Maria Emília Brederode Santos, Luísa Sarsfield Cabral, Margarida Tengarrinha, Teresa Loff Fernandes, Ruth Rodrigues e Zezinha Chantre são as protagonistas de um filme onde representam uma imensa força que são as todas mulheres que, entre Portugal e os territórios africanos ocupados, lutaram para construir a revolução de Abril e nas guerras de libertação travadas pelos movimentos independentistas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.
“Mulheres de Abril” é o momento de as mulheres ocuparem o seu lugar na história, de dar voz às “capitãs de Abril”.
Em entrevista à RFI, a realizadora portuguesa Raquel Freire começa por revelar como o contexto familiar a inspirou a criar “Mulheres de Abril”.
Raquel Freire, realizadora do filme Mulheres de Abril:
Tenho o grande privilégio de ter uma família de lutadoras e lutadores antifascistas. Ou seja, eu tenho na minha família pessoas que morreram para eu poder estar aqui hoje em liberdade a fazer filmes. E cresci a ouvir estas histórias da minha avó, das minhas tias-avós, da minha mãe, do meu pai, todas as histórias da luta, inclusive até da Virgínia Moura, que foi uma grande lutadora anti-fascista do Porto, e achou eu por ser tão próximo, sempre soube que ia ter que fazer este filme, mas fui sempre adiante. Até que de repente me apercebi, pela minha mãe, que ela já estava a ficar numa idade em que era o momento certo para contar estas histórias.
E, ao mesmo tempo, também porque tenho um filho, apercebi-me que havia um grande desconhecimento da juventude do que tinha sido o nosso passado. O nosso passado de luta. Ou seja, nós não tivemos só quase 50 anos da ditadura mais longa da Europa e 500 anos de colonialismo. Nós tivemos décadas de luta contra o colonialismo e tivemos cinco décadas de luta contra a ditadura. E este factor de ter existido sempre resistência e sempre uma luta de diferentes colectivos, desde os católicos progressistas, aos comunistas, aos socialistas, às pessoas mais conservadoras. Mas esta luta pela democracia estava por contar-se. E quando era contada, era sempre sobre o modo de - ah, houve um herói que fez isto - . E não, o 25 de Abril não foi feito num dia. O Salgueiro Maia não acordou de manhã a dizer, hoje vou chamar os meus amigos e fazer o 25 de Abril. Não.
Começou na Guiné. Começou com uma luta contra a guerra colonial, contra a injustiça do que era a guerra colonial, contra uma juventude em Portugal que era mandada para morrer durante décadas nas nossas antigas colónias e a opressão de povos que tinham todo direito na sua autodeterminação e na sua independência.
Portanto, esta luta pela liberdade, tanto em Portugal como em África, estava por contar-se. E sempre que era contada era só por homens e sobre homens. Portanto, havia uma história por contar-se. E esta história é o que vamos ver neste filme.
Uma história que, neste caso, é contada só por mulheres.
Sim, porque a história até agora foi contada por homens e sobre homens. E estamos em 2026.
Chegou o momento de darmos voz e de escutarmos com atenção as mulheres que sempre tiveram na história e que foram sendo apagadas dela. E que foram fundamentais a sua participação na luta pela liberdade. Sem estragarmos o prazer de ver o filme, o que é que levou a Raquel Freire a colocar cada uma destas mulheres neste...
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Com isenção de taxas para países africanos, China está "a preencher vazio" deixado pelos Estados Unidos
5/1/2026
Entra hoje em vigor a isenção de taxas aduaneiras para 53 países africanos que queiram exportar para a China. Esta é uma medida de Pequim que visa colmatar o vazio deixado pelos Estados Unidos após a chegada ao poder de Donald Trump em 2024 e que tem mostrado que os norte-americanos não são parceiros de "confiança" no comércio mundial.
A partir de hoje, os produtos de 53 países africanos que entrem na China não pagam quaisquer taxas aduaneiras. Estamos assim, por exemplo, a falar do café da Etiópia, das laranjas da África do Sul, dos abacates do Quénia ou do cacau oriundo da Costa do Marfim que até agora pagavam entre 8 a 30% do seu valor em taxas aduaneiras e que passam a entrar livremente na China.
Pequim já tinha estabelecido uma regra similar no passado, mas apenas para os países considerados como subdesenvolvidos no continente africano, alargando agora a medida a países como a África do Sul, Nigéria ou Etiópia.
Com esta medida, o economista Francisco Miguel Paulo, actualmente investigador assistente na Business Research Unit no ISCTE, em Lisboa, considera que a China está a preencher o vazio deixado pelos Estados Unidos desde a chegada ao poder de Donald Trump, que instaurou uma guerra comercial mundial com as taxas aduaneiras.
"A China está a preencher o vazio que os Estados Unidos estão a deixar na governança mundial, já que os Estados Unidos até então ditos defensores do livre comércio estão a defender o proteccionismo. Mas alguém tem que liderar a economia mundial e a China está a ver isto como uma oportunidade. Os Estados Unidos ainda não renovaram com os países africanos e os países africanos estão no limbo. E agora a China ofereceu esta oportunidade, esta decisão unilateral de não aplicar tarifas às exportações dos países africanos que têm relações diplomáticas com a China", explicou o economista Francisco Miguel Paulo.
O única país africano não incluído neste acordo é o Essuatíni, já que mantém ainda relações diplomáticas com Taiwan, vendo-se assim excluído desta medida chinesa.
Segundo Francisco Miguel Paulo, cabe agora aos países africanos desenvolverem as suas indústrias de forma a passarem a exportar produtos já transformados e não só matéria-prima. Recentemente, a Nigéria inaugurou a sua primeira refinaria, um exemplo para outros países produtores de petróleo em África como Angola, que para além do petróleo possui também grandes potencialidade no sector agrícola.
"Angola, infelizmente, não tem uma política industrial própria e consistente e poderia ter. Angola tem a capacidade de produzir também produtos manufacturados e exportar para a China. E é um facto interessante. Há muitos pequenos empresários chineses que vão para Angola, estão a apostar na agricultura e criam um mercado próprio para a população chinesa em Angola e para exportar para a própria China porque eles conseguem entender que amanhã, se o país tiver uma política industrial séria, Angola vai conseguir transformar os seus produtos agrícolas para produtos manufacturados e exportar para qualquer país do mundo. Angola tem boa fruta, tem bons produtos agrícolas, mas infelizmente só falta uma política industrial própria. E quando digo em Angola, digo no resto dos países africanos, porque senão só a Nigéria, África do Sul ou Etiópia é que podemos assim dizer que têm uma indústria. Uma boa parte dos países africanos não têm, infelizmente e dependem sempre da exploração de matéria prima", concluiu o economista.
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Ambientalista guineense analisa impacto da saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP
4/30/2026
Divergências estratégicas entre dois dos maiores produtores do petróleo, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, vão originar um aumento brutal do preço do produto no mercado internacional e quem não se precaver com fontes energéticas alternativas terá problemas internos.
As divergências já antigas com a Arábia Saudita levaram os Emirados Árabes Unidos a anunciar que vão sair da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a partir do dia 1 de Maio.
Viriato Luís Soares Cassamá, engenheiro ambiental e ex-ministro do Ambiente, Biodiversidade e Acção Climática da Guiné-Bissau diz que os Emirados Árabes Unidos querem atacar o mercado da venda do petróleo, a partir de agora, de forma isolada.
Ou seja, querem estar livres da responsabilidade de produzir por quotas, conforme os mecanismos da OPEP.
Os Emirados Árabes Unidos é o terceiro maior produtor do petróleo do mundo. A sua saída (da OPEP) em larga medida, irá comprometer o preço do barril do petróleo a nível mundial. No sistema de quotas haverá uma viragem para a conquista do mercado. Os Emirados Árabes Unidos, como todos nós sabemos, investiram muito (dinheiro) para aumentar a sua capacidade de produção do petróleo. De acordo com os dados investiram mais de cinco mil milhões de dólares para produção de cinco milhões de barris (de petróleo) por dia e essa saída (da OPEP) irá com certeza reduzir a quantidade de barris produzidos por dia a nível da OPEP e consequentemente aumentará o preço do petróleo.
Países que utilizam os combustíveis derivados do petróleo vão sofrer, afirma Viriato Cassamá, porque perspectiva-se um aumento galopante do preço do produto e a Guiné-Bissau deve estar preparada para enfrentar as consequências.
Como a Guiné-Bissau é um país que não produz petróleo, a nossa matriz energética é mais na base térmica, os combustíveis fósseis, com certeza que a Guiné-Bissau, nesta primeira fase, irá sofrer e muito com a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP e da OPEP +.
Com o preço do petróleo em alta restará aos países avançarem para fontes alternativas de produção de energia, nomeadamente a partir do vento, da água, da biomassa florestal e do sol. Nesses capítulos, defende Viriato Cassamá, a Guiné-Bissau estará à vontade para produzir energia de forma limpa e sustentável a longo prazo.
A alternativa que resta à Guiné-Bissau é de capitalizarmos o activo energético que nós temos. A Guiné-Bissau é um país que tem mais de 30 mil horas de insolação [de sol] por ano. Investindo nas [energias] renováveis a Guiné-Bissau, irá, com certeza, ter uma soberania energética, não só no solar como também na biomassa florestal, porque a Guiné-Bissau é um país florestal, tem muita biomassa florestal que neste momento não é aproveitada para produção da energia.
De acordo com estudos feitos, a parte insular, a parte das ilhas tem um potencial grande da produção da energia através do vento, a energia eólica. A Guiné-Bissau, antigamente, na época colonial, era conhecida como “Terra de mil rios”, temos tantos rios, também podemos aproveitar esses recursos naturais para podermos produzir energia através de mini- hídricas. Quer dizer que a Guiné-Bissau tem muitas potencialidades para produzir a sua própria energia de uma forma muito mais limpa e que terá uma sustentabilidade a longo prazo.
O país não tem muitos recursos financeiros internos, mas Viriato Cassamá é da opinião de que é possível ir buscar dinheiro junto de parceiros internacionais de desenvolvimento para a materialização de projectos de construção de centrais de produção de energia a partir do sol.
Temos estado a trabalhar com os nossos parceiros de desenvolvimento. Neste momento está-se a concluir a construção da central solar de Bôr (subúrbios de Bissau). Está-se a pensar também construir três centrais solares, em Gabu, Bafatá (ambas cidades no leste do país) e Canchungo (cidade do norte do país). A Guiné-Bissau tem muita potencialidade nesta área, mas é preciso fazermos uma diplomacia com mais...
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"A OPEP precisa de se reorganizar se não quiser continuar a perder países-membros"
4/29/2026
Em plena guerra no Médio Oriente, os Emirados Árabes Unidos decidiram abandonar nesta terça-feira, 28 de Abril, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo OPEP, em nome dos "interesses nacionais". O economista angolano Osvaldo Mboco considera que esta saída fragiliza a liderança da Arábia Saudita e vai obrigar à reorganização da OPEP.
Os Emirados Árabes Unidos decidiram sair da OPEP, invocando o interesse nacional. O que é que esta decisão reflecte?
Os Emirados Árabes Unidos são um dos maiores produtores de petróleo a nível mundial e têm capacidade para aumentar a sua produção. No entanto, as normas da OPEP, conduzidas pela Arábia Saudita - que chefia a organização - impõem contenção e redução do número de barris de petróleo produzidos por dia.Isto tem implicações ao nível da economia dos países. Esta retirada reflecte a posição dos Emirados Árabes Unidos que têm como objectivo ganhar maior autonomia relativamente à sua política energética. Esta automonia passa, essencialmente, pelo aumento da produção diária, com o objectivo de maximizar receitas provenientes dessa mesma produção, bem como intensificar o seu papel enquanto um dos maiores produtores de petróleo a nível mundial.
Eram conhecidas as fortes rivalidades pelo controlo da OPEP entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. A liderança saudita fica posta em causa com esta decisão?
A liderança fica um pouco fragilizada. Esta liderança tem vindo a sofrer saídas de países-membros de forma significativa , países com uma produção relevante, como foi o caso de Angola, Qatar e Equador. Agora, os Emirados Árabes Unidos, o que pode também abrir caminho para que outros países, que ainda estão na organização, tencionem fazer o mesmo.
Isto acaba, em certa medida, por fragilizar a posição da Arábia Saudita relativamente à sua liderança. Ainda assim, a OPEP continua a ser, uma organização extremamente importante do ponto de vista da regulação da produção, podendo influenciar o preço do barril de petróleo.
O mercado petrolífero funciona na lógica da oferta e da procura: quanto maior for a oferta, tendencialmente o preço desce; quanto maior for a escassez ou o controlo, pode haver um equilíbrio que evite aquilo a que eu chamaria um choque petrolífero, que pode pôr em causa o próprio preço do petróleo.
Os Emirados Árabes Unidos tinham recentemente criticado a resposta militar dos países do Golfo, com o encerramento do Estreito de Ormuz, devido à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão. Esta situação também pode ter levado à saída da organização?
Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita convergem em determinadas matérias de política externa. Ambos são aliados dos Estados Unidos, embora tenham algumas divergências nas suas relações com a Rússia e a China. Ainda assim, existem assuntos estruturais em que seguem na mesma direcção.
Os Emirados Árabes Unidos têm uma visão diferente relativamente ao que está a acontecer no Golfo Pérsico, nomeadamente no que diz respeito ao Estreito de Ormuz e às influências na região.
Se repararmos, também várias críticas foram feitas por aliados europeus aos Estados Unidos, relativamente à sua estratégia no Oriente. Assistimos, pela primeira vez, a vários “nãos” relativamente a intervenções apoiadas pela NATO, o que considero normal.
O Presidente dos Estados Unidos tinha recentemente acusado a organização de enganar o mundo ao aumentar o preço do petróleo. Esta saída pode ser vista como uma vitória para Donald Trump?
Os Estados Unidos são um dos países que mais consomem petróleo, em função da sua capacidade industrial. Naturalmente, quanto maior for o preço do petróleo, maiores podem ser os impactos económicos. Do ponto de vista político, não diria que é uma vitória, mas sim uma decisão que pode interessar aos Estados Unidos. Os americanos também produzem petróleo de xisto - embora seja mais dispendioso - e possuem uma das maiores reservas do mundo.
No entanto, uma fragilidade da OPEP pode não ser totalmente vantajosa...
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Condenação do activista angolano Osvaldo Caholo "é uma jogada para o manter fora da circulação"
4/28/2026
O activista angolano Osvaldo Caholo foi condenado nesta segunda-feira a dois anos e meio de prisão efectiva pela prática do crime de instigação pública ao crime aquando das manifestações de Julho do ano passado contra o aumento do preço do combustível que resvalaram para incidentes em vários pontos do país e resultaram oficialmente em pelo menos 30 mortos em Luanda. A defesa do activista que se encontra detido desde essa altura apresentou recurso contra esta decisão que considerou injusta.
Apesar de a 5.ª Secção da Sala dos Crimes Comuns do Tribunal da Comarca de Luanda absolver o activista de 37 anos dos outros crimes de que era acusado, apologia do crime e rebelião, foram unânimes as reacções de decepção por parte da sua defesa como também dos seus familiares que denunciaram uma sentença a seu ver "excessiva" e "com motivações políticas".
Para além da sua pena de prisão, o activista, antigo militar e também universitário que ficou conhecido há dez anos por fazer parte do grupo "15+2", foi condenado a pagar uma multa de 250 mil Kwanzas.
Muito embora lhe tenham reconhecidas circunstâncias atenuantes, como o facto de ter cooperado com as autoridades, ser chefe de família, pai de menores e ter mantido uma boa conduta durante o processo, a justiça angolana considerou que ele proferiu ameaças contra figuras do poder durante uma transmissão em directo nas redes sociais, no âmbito das manifestações de Julho de 2025.
Em entrevista concedida à RFI, o advogado Simão Afonso, membro da equipa de defesa do activista, fez o ponto da situação.
"Enquanto advogado de defesa. É evidente que é uma condenação que a nós não satisfaz, na medida em que sempre estivemos convencidos de que o nosso constituinte era inocente. Durante a audiência de produção de provas por mais de três dias, não ficaram provados os crimes de que é acusado. Não obstante o Ministério Público ter pedido a absolvição nos dois crimes, necessariamente o de rebelião e apologia pública, nós, enquanto defesa, nas alegações orais, solicitámos ao tribunal que ele fosse absolvido dos três crimes, mesmo para efeitos do crime de instigação pública ao crime, aquele em que foi condenado. O tribunal não apresentou qualquer prova. Nunca ficou provado no tribunal. Todos os fundamentos que o tribunal apresentou para o incriminar têm muita incidência política. Portanto, para nós, não faz qualquer sentido esta condenação, porque em nenhum momento ficou provado e é só por isso que, em reacção imediata, nós interpusemos o recurso", explicou o advogado.
Para o representante de Osvaldo Caholo, o que ficou evidente durante o processo, "é uma contradição muito visível, expressa naquilo que foi a condenação e o fundamento da própria condenação. Nós estamos a ver o tribunal a fundamentar a decisão e apresentar um conjunto de atenuantes e situações que favorecem o arguido. O facto de ser réu primário, o facto de ser chefe de família, ter cooperado significativamente, ser pai de filhos menores, um conjunto de atenuantes. E foi apresentada apenas uma situação agravante, que é o dolo. E nós estamos a ver, tendo em conta as atenuantes que foram reconhecidas pelo próprio tribunal através da juíza e a moldura penal, que são de três anos, estamos a ver fazer mais sentido, o tribunal a fazer cair pelo menos metade da pena".
Ao evocar os passos a seguir depois de ser entregue o recurso da defesa, Simão Afonso refere que "o processo vai agora para a relação, para ser apreciada num tribunal superior. Tendo em conta o prazo da prisão preventiva, nenhum detido pode ficar mais de 18 meses sem condenação transitada em julgado. Então quer dizer que o tribunal tem esse limite. Ele já está preso há nove meses, então o tribunal tem antes de 18 meses para proferir uma decisão relativamente ao processo que agora vai apreciar".
Sobre o estado de espírito do seu cliente, o advogado refere que "é um elemento bastante forte. Ele sempre demonstrou convicção. Em nenhum momento ficou abalado".
Apesar de o interessado...
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"União entre rebeldes tuaregues e jiadistas é um fenómeno novo", analisa Leonardo Simão, representante da ONU para o Sahel
4/27/2026
Esta segunda-feira 27 de Abril, 48h depois dos ataques simultâneos em sete localidades do Mali, em que morreu o ministro da defesa Sadio Camara, os relatos são de uma certa acalmia, nomeadamente na capital Bamaco. A junta diz ter tomado o controlo da situação, afirma ter repelido em várias localidades os ataques dos jiadistas do JNIM aliados com os rebeldes tuaregues da FLA. Qual é a realidade destas afirmações? O que revelam estes ataques do estado em que se encontra o Mali, e mais geralmente a região do Sahel, que a ONU descreve como o "epicentro mundial" da ameaça terrorista? Elementos de resposta com Leonardo Simão, representante da ONU para a região do Sahel.
A 25 de Abril o Mali acordou ao som de disparos e explosões. De Bamaco a Kidal, de Gao a Mobti, sete localidades foram simultaneamente atacadas ao amanhecer com uma precisão que surpreendeu os analistas. Os jiadistas do JNIM e os rebeldes tuaregues da Frente de Libertação Azawad (FLA) atacaram juntos. O ministro da defesa Sadio Camara morreu, a cidade de Kidal caiu às mãos dos insurgentes, os mercenários russos da Africa Corps foram obrigados a retirar-se da cidade, fragilizando ainda mais a junta no poder a quem os russos se aliaram alegadamente para lutar contra o terrorismo. Esta segunda-feira os relatos são de uma certa acalmia. A junta diz ter tomado o controlo da situação, afirma ter repelido os ataques em várias localidades. Qual é a realidade destas afirmações? Era previsível esta ofensiva? O que revela do estado em que se encontra o Mali, e mais geralmente a região do Sahel, que a ONU descreve como o "epicentro mundial" da ameaça terrorista? Elementos de resposta com Leonardo Simão, representante da ONU para a região do Sahel.
Leonardo Simão: Acompanhei todos estes ataques, de Bamaco a Gao e Mobti, assim como a morte do ministro da Defesa e outros dirigentes. É um escalar de instabilidade na região. O Sahel já era uma zona instável, tem estado sob pressão do jiadismo de forma bastante forte. E neste momento temos um novo desenvolvimento, que é a associação do JNIM jiadista com a rebelião tuaregue da FLA. E espero que este novo desenvolvimento contribuirá para que seja alcançada uma solução negociada para o país. Porque um dos desafios recorrentes do Mali é justamente o modelo de governação. Talvez agora se abram caminhos para que isso seja possível.
Esta associação entre os rebeldes tuaregues da FLA e grupo jiadista do JNIM, é algo que a junta no poder tinha previsto? Cai uma cidade às mãos da rebelião e dos jiadistas, morre um ministro, poderia isto ter sido antecipado?
Não sei de que informações dispunha a junta sobre a organização destes ataques simultâneo. Mas a verdade é que estas investidas no Mali, como no Níger e no Burkina Faso, têm tido uma intensidade crescente, mas também um grau de sofisticação crescente. Os ataques simultâneos deste fim-de-semana em várias zonas do Mali mostram só por si o grau de sofisticação e a organização dos grupos jiadistas.
Há um escalar da instabilidade no Sahel, e um grau cada vez maior de sofisticação dos ataques jiadistas.
O JNIM tem capacidades letais e ofensivas maiores do que o grupo rebelde tuaregue?
Estes recentes ataques foram atribuídos ao grupo jiadista. Em Dezembro também atacaram os comboios que levavam combustível para Bamaco. Isso mostrou um grau de sofisticação cada vez mais elevado.Houve também ataques em Janeiro, no aeroporto de Niamey, no Níger, e em Março no aeroporto de Touha. São sempre ataques de grande envergadura, e de cada vez com um grau de sofisticação superior aos ataques anteriores. Portanto, há um crescendo da sofisticação dos ataques. Agora se é preciso abrir espaço ou não para se encontrar uma solução negociada: só o governo poderá saber.
A rebeldia tuaregue e os jiadistas do JNIM partilham as mesmas ideologias, ou estamos perante uma aliança de conveniência? Esta união é um fenómeno novo?
É um fenómeno novo, mas cujos detalhes eu não conheço. No entanto, o que os rebeldes...
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Albino Carlos: “A música constitui um dos mais saborosos ingredientes da cultura angolana.”
4/26/2026
História da Música de Angola é a obra que o escritor, professor e jornalista Albino Carlos lançou recentemente em Lisboa. O livro consolida o elo entre identidade, cultura e história. Abordando a produção musical feita nos diferentes géneros e em diferentes línguas nacionais, Albino Carlos contribui para promover a “definição de quem é o angolano e de quem é Angola.”
História da Música Angolana é o livro que faltava para um melhor entendimento do manifestar musical de angolanas e angolanos. O mais recente trabalho de Albino Carlos proporciona uma viagem pela alma musical de Angola, pela essência do povo angolano.
Estabelecendo a relação entre história, cultura e identidade, o livro História da Música Angolana torna-se essencial para pintarmos um mais elucidativo quadro de uma sociedade onde o cantar e dançar são forma de viver e podem fazer um país evoluir nas diferentes relações dentro da imensa comunidade formada por todos aqueles que fruem da música angolana.
A RFI aproveitou a presença do Albino Carlos na capital portuguesa para uma conversa sobre a singularidade da cultura musical de Angola e o livro recentemente editado em Portugal pela Oficina da Escrita.
Albino Carlos começa por revelar que a ausência de bibliografia produzida por académicos e estudiosos angolanos foi um dos elementos que espoletou a obra agora lançada.
Albino Carlos, autor do livro História da Música de Angola: Este livro nasceu de um questionamento existencial e intelectual. Intelectual por quê? Porque fui percebendo, ao longo do tempo, que a maior parte da bibliografia, dos estudos académicos sobre a música angolana eram feitos por académicos e estudiosos estrangeiros. São conhecidos os estudos profundos do professor Mesquitela Lima, são conhecidos os estudos profundos que a antiga Companhia Nacional de Diamante fez sobre a produção musical da região do Leste, são conhecidos estudos que muitos estudiosos, ainda no século XVIII, alemães fizeram sobre a música angolana.
Portanto, havia esta dúvida, este questionamento intelectual: qual a razão pela qual Angola, sendo um país musical, tem tantas músicas, tanto quanto tem de povos e nações, não era objeto de estudo nas universidades, não era objeto de aprofundamento académico por parte dos intelectuais e por parte, sobretudo, da classe académica angolana. Esta foi a perspectiva do questionamento intelectual.
Depois, houve também um certo questionamento existencial.
O Luis sabe que nós somos a música que produzimos e que fazemos. Os povos definem-se muito pela música, porque a música é a arte das artes, é a expressão da nossa alma.
Em qualquer parte do mundo, se disser que estou a cantar um fado, as pessoas remetem logo para Portugal. Basta falar no samba, as pessoas remetem logo para o Brasil, e assim sucessivamente.
Tendo em conta que a música, no caso particular da Angola, é um dos mecanismos que os angolanos mais se socorrem para falar de si, para contactar o outro, para chorar, para dançar, para... . Enfim, tendo em conta a importância que esta mesma música desempenhou, quer na resistência contra o colonialismo, quer para suportar as agruras da escravatura, e até na guerra civil que aconteceu, que dilacerou o nosso país, foi graças ao canto, foi graças ao batuque, que os angolanos e Angola resistiram a esses momentos tremendos que nós passávamos e que queremos esquecer.
Portanto, a música desempenhou um papel muito, mas muito importante na definição de quem é o angolano e de quem é Angola, quem a Angola é. É esta questão existencial.
Quer dizer, eu sempre me bati para que o semba também fosse reconhecido como o símbolo do nosso fazer musical, a simbologia daquilo que o angolano gosta de ser.
Então, é por aí que eu decidi começar a fazer um estudo sobre a nossa música.
Nos últimos 15 anos da minha vida, mesmo passando pela política, pela docência universitária, fui fazendo os meus estudos, mas também fiz um desafio pessoal, eu não queria fazer um livro sobre música angolana, como eram...
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Crise energética “é um problema crónico” em São Tomé e Príncipe
4/24/2026
A crise energética volta a complicar o quotidiano das pessoas em São Tomé e Príncipe. Esta quinta-feira, o primeiro-ministro, Américo Ramos, pediu desculpas à população pela crise que dura há 10 meses e prometeu que a situação será resolvida nas primeiras semanas de Maio. Este “é um problema crónico” no país, alerta o sociólogo Olívio Diogo, numa entrevista em que analisa as causas e o possível impacto desta crise.
Em São Tomé e Príncipe, o primeiro-ministro, Américo Ramos, pediu desculpas à população pela crise energética que dura há 10 meses no arquipélago e prometeu que a situação será resolvida nas primeiras semanas de Maio. A declaração foi feita depois de uma reunião convocada pelo Presidente da República, Carlos Vila Nova, com participação do ministro das Infraestruturas e a direcção da Empresa de Água e Eletricidade para analisar a situação energética no país.
A crise energética voltou a instalar-se no país com cortes constantes e prolongados de electricidade desde Agosto do ano passado, quando a empresa Tesla STP, de investidores turcos, suspendeu o contrato, alegando dívidas acumuladas pelas autoridades são-tomenses. A chegada, em Janeiro, de seis novos grupos de geradores ao país não resolveu o assunto.
A crise energética “é um problema crónico do país”, alerta o sociólogo são-tomense Olívio Diogo, avisando que a população continua às escuras literal e simbolicamente, estando “zangada e estupefacta com a situação energética”, o que pode ter impacto nas eleições deste ano.
“A situação catastrófica energética em São Tomé e Príncipe tem produzido problemas graves na vida da população e das pessoas que não conseguem ter os seus bens alimentares conservados, por um lado. Por outro lado, os hotéis, a restauração e todos estes equipamentos de desenvolvimento económico do país estão a sofrer consequências. Também têm aumentado dificuldades para as crianças que vão à escola porque isto tem pesado também ao nível dos pais”, descreve Olívio Diogo.
A guerra no Médio Oriente deverá piorar a crise energética em São Tomé e Príncipe, acrescenta Olívio Diogo: “Se nós já estamos a ter problemas de energia antes mesmo de começarmos a enfrentar aquela situação do Médio Oriente, a população tem que se preparar porque quando as consequências da guerra no Médio Oriente começarem a fazer peso na situação de fornecimento de combustível são-tomense a situação vai piorar.”
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Guiné-Bissau: Defesa de Domingos Simões Pereira denuncia “sequestro”
4/23/2026
O advogado Roberto Indeque, membro do colectivo de defesa de Domingos Simões Pereira, afirmou que o dirigente político está privado da liberdade sem base legal e sem qualquer processo judicial em curso. Em entrevista, denuncia ainda isolamento há três semanas, restrições impostas a Fernando Dias da Costa e critica a inacção da comunidade internacional perante a crise na Guiné-Bissau.
A Guiné-Bissau volta a mergulhar num ambiente de tensão política, marcado por versões opostas sobre o estado do país. Por um lado, o Governo de transição insiste numa mensagem de normalidade institucional, crescimento económico e diálogo entre actores políticos, e do outro a oposição denuncia restrições de direitos, detenções arbitrárias e controlo apertado sobre figuras políticas.
No centro da controvérsia está a situação de Domingos Simões Pereira. Em entrevista, o advogado Roberto Indeque, integrante do colectivo de defesa do antigo primeiro-ministro, faz acusações directas: “Estamos perante uma detenção política ou, se quiser dizer de forma mais precisa, estamos perante um sequestro”, declara.
A escolha das palavras não foi casual. Questionado sobre os fundamentos jurídicos dessa afirmação, o jurista respondeu de forma categórica: “O senhor Domingos Simões Pereira nunca teve processo no Tribunal Militar e hoje não tem processo em nenhum tribunal do país.”
Nome citado num relatório sem consequências processuais
Segundo a defesa, a origem de toda a narrativa oficial reside apenas numa menção ao nome do dirigente político num relatório de inquérito relacionado com a alegada tentativa de golpe de Estado de Outubro de 2015.
“O que aconteceu simplesmente é que o seu nome aparece num parágrafo no relatório de inquérito do suposto caso tentativa de Estado de Outubro de 2015. É só isso”, afirma Roberto Indeque.
O advogado acrescenta que, por se tratar de uma figura pública e líder de um dos principais partidos do país, as autoridades entenderam pedir esclarecimentos. “Por ser uma figura pública e por ser líder do maior partido político, a promotoria militar achou por bem que havia necessidade de se esclarecer em que circunstâncias teria aparecido o seu nome no relatório.”
Ainda assim, sustenta que nunca foi dado qualquer passo formal para abertura de processo. “Ele foi no dia 13 de Fevereiro, quando a promotoria o convocou para ir esclarecer. Foi lá, declarou tudo o que havia para declarar.” E prossegue: “A promotoria achou-se satisfeita com a declaração e ele saiu da promotoria tal como entrou.”
Para a defesa, esse detalhe é juridicamente decisivo. “Não houve despacho de suspeito, muito menos despacho de acusação. A figura de declarante não é sujeito processual. Não sendo sujeito processual significa que não há nenhum processo contra ele.”
“Prisão domiciliária não existe no nosso sistema”
Outro eixo da argumentação do advogado prende-se com as restrições impostas ao antigo governante, descritas como uma forma de reclusão informal. “Vamos admitir hipoteticamente, ainda que remota, que houvesse um processo judicial contra ele. Se se falasse de prisão domiciliária, não seria o caso aplicável”, afirma.
A razão, explica, é simples: “No nosso ordenamento jurídico, entre as medidas de coacção existentes no Código de Processo Penal, não está prevista a prisão domiciliária.” Daí a conclusão: “Isto não é detenção, não existe detenção domiciliária. Não é prisão porque também não existe prisão domiciliária. Por isso eu chamei isso de sequestro.”
E reforçou a acusação: “Quando um órgão judicial ou qualquer órgão administrativo utiliza um expediente que não esteja previamente regulado, está a cometer uma ilegalidade.”
Para o advogado Roberto Indeque, o caso ultrapassa o plano jurídico e inscreve-se numa estratégia política. “O regime está a construir essa narrativa em volta do senhor Domingos Simões Pereira”, afirma.
Três semanas sem acesso de médicos e advogados
As denúncias tornam-se mais sensíveis quando o advogado descreve o actual regime de...
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Angola: Visita do Papa expõe feridas e levanta receios sobre eleições
4/22/2026
A visita do Papa Leão XIV a Angola terminou sem incidentes e deixou um balanço globalmente positivo. A posição é do padre Celestino Epalanga, secretário-geral da Comissão Episcopal de Justiça, Paz e Integridade da Criação da CEAST, que lembra que “as palavras do Santo Padre não são mágicas, caberá agora à sociedade civil, academia, e igreja apropriarem-se dessas palavras e começarem a fazer pressão ao Governo”.
Celestino Epalanga considera que, sem esse envolvimento, o impacto da visita tenderá a esvaziar-se com o tempo. “Depois de alguns dias de alguns meses já ninguém se lembra”, defendendo a necessidade de “arregaçar as mangas” para transformar as mensagens do Papa em mudanças concretas.
Em Angola, Leão XIV abordou temas sensíveis, como as desigualdades sociais, a corrupção e a concentração da riqueza, além de ter apelado aos jovens para a construção de “um mundo melhor, mais acolhedor, onde não haja guerra, nem injustiça, nem miséria, nem desonestidade”. Para o padre Celestino Epalanga, estas intervenções reflectem problemas concretos do país: “Tudo o que o Papa disse é o que nós vivemos neste país”.
O sacerdote aponta indicadores preocupantes, como a pobreza e o acesso limitado à educação. “Um terço da população angolana vive abaixo do limiar da pobreza num país extremamente rico em recursos minerais, em água, terras aráveis. Não se compreende”, acrescentando que “temos por volta de nove milhões de crianças fora do sistema de ensino”. Referiu ainda fenómenos como a malnutrição infantil e a prostituição de menores, sublinhando que “se não podem estudar, o seu futuro está comprometido à partida”.
A crítica estende-se à gestão dos recursos e à actuação das elites, que “por causa da ganância de querer acumular tudo para si, não deixa absolutamente nada para os demais”. Celestino Epalanga defende que as receitas provenientes de recursos naturais deveriam ser aplicadas em infra-estruturas básicas como escolas, hospitais e estradas, em vez disso, “o dinheiro é tirado de Angola, obviamente, e depois muitas vezes vai parar aos paraísos fiscais”.
O religioso questionou também os resultados do combate à corrupção anunciado pelo Presidente João Lourenço. “Tentou combatê-la, mas não deu passos significativos”, sustentando que houve apenas “uma substituição de um grupo” beneficiário e criticou o peso da dívida pública: “metade do Orçamento Geral do Estado, todos os anos, praticamente vai para pagar a dívida pública. Chama-se dívida odiosa”.
A proximidade das eleições gerais levanta preocupações quanto à transparência e estabilidade. O sacerdote admite o risco de instrumentalização da visita papal, comparando a situação a uma encenação temporária: “Os meus pais brigaram, mas sempre que viesse uma visita a casa, eles tinham uma paz momentânea e o mesmo diria de Angola”.
Enquanto secretário-geral da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, afirma estar empenhado em promover o diálogo e prevenir tensões futuras. “O sentimento que tenho é que se nós não trabalharmos agora, poderemos ter muitos problemas, muitas tensões e muita violência em 2027”. “O MPLA não quer sair do poder, não quer sair do poder e nem sequer pensa em sair do poder”. Mas, “a sociedade, a população já não acredita no MPLA. O MPLA caiu em descrédito. E há uma juventude sobretudo ávida de mudança, que quer novas coisas, que quer efectivamente que o MPLA saia do poder.”
Celestino Epalanga fala nesta “via que perdeu o medo e que já não tem nada a perder” e que pede “pela primeira vez eleições livres e justas. Mas eu não creio que isto vai acontecer.” “Portanto, já paira esta tensão no ar. Em 2022, estivemos à beira de um conflito, sangrento, diria mesmo. Em 2027, se não nos precavermos, então não teremos como escapar desta hecatombe”, acrescenta.
Por fim, abordou o papel dos jovens activistas, que não foram visíveis durante a visita papal. “Alguns dos jovens foram presos antes mesmo que o Papa viesse. E outros estão fora do país”, disse, acrescentando que o silêncio...
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Amnistia Internacional afirma que a "humanidade está sob ataque"
4/21/2026
O relatório da Amnistia Internacional sobre a situação dos Direitos Humanos no mundo, divulgado nesta terça-feira, 21 de Abril, em Londres, denuncia ataques constantes ao multilateralismo, ao direito internacional e à sociedade civil liderados por Estados poderosos e alerta para a degradação dos direitos humanos em 144 países. Em entrevista à RFI, João Godinho Martins, director executivo da Amnistia Portugal, comenta as conclusões do relatório e afirma que a humanidade está sob ataque.
Qual é a situação dos direitos humanos no mundo?
O que a Amnistia documenta é o colapso em curso, o colapso de uma sociedade, de um mundo que viveu durante 80 anos sob uma ordem internacional, sob um multilateralismo e que agora vemos extinguir-se. O que a Amnistia vem aqui dizer é que a humanidade está sob ataque: ataque de movimentos transnacionais anti-direitos humanos, ataque de predadores, de autocratas como Vladimir Putin, como Benjamin Netanyahu, como Donald Trump, que querem afirmar o seu domínio e o seu poder sobre todo o mundo e sobre toda a gente.
No relatório fazem referência às ferramentas de inteligência artificial. De que forma vieram as novas tecnologias contribuir para a deterioração dos direitos humanos?
As novas tecnologias e as redes sociais, nomeadamente a inteligência artificial, e a falta de regulação no espaço digital são, sem dúvida, um problema e um factor que potencia o crescimento destes movimentos anti-direitos. Mas não é o único. São também os nossos decisores políticos, os líderes mundiais, que têm o poder de fazer as leis, de as mudar e de definir as práticas.
É verdade que a inteligência artificial, bem como o facto de as grandes empresas tecnológicas estarem resguardadas à volta destes líderes autoritários e destes predadores dos direitos humanos, contribuem para esta situação. A Amnistia, ao longo de 2025, também chamou a atenção para diferentes questões, nomeadamente a utilização do TikTok, por exemplo, e de que forma influencia as nossas crianças, mas também para a inteligência artificial a outros níveis.
Por exemplo, quando fizemos a investigação sobre o ataque ilegal dos Estados Unidos contra uma escola no Irão, que matou mais de 100 crianças, falámos também sobre a inteligência artificial e sobre o seu papel nos serviços de informação norte-americanos e nas Forças Armadas norte-americanas. E perguntamos: qual é a responsabilidade e qual foi o peso destas novas tecnologias no assassinato que testemunhámos?
A Amnistia Internacional faz referências aos Presidentes Donald Trump, Vladimir Putin e ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. O que diz o relatório sobre estes líderes políticos?
Em 2025, vimos claramente como estes governos poderosos se transformaram em veículos de movimentos anti-democráticos e anti-direitos humanos. Por um lado, Putin e Netanyahu - já vínhamos, ao longo de muitos anos, a observar a sua actuação - tal como vínhamos a observar o Presidente Maduro na Venezuela e o regime chinês.
O que vemos hoje, e o que sublinhamos, é que juntamos a nomes como Putin e Netanyahu o nome do Presidente norte-americano, um aliado de Portugal e da Europa, a administração de um país que queríamos democrático e defensor dos direitos humanos e que agora, em 2025, não o demonstra.
Por outro lado, não são só estes três líderes: há também quem lhes permite existir, quem permite que continuem a fazer negócios em todo o mundo e a fazer guerras em todo o mundo. Os líderes europeus têm-se demonstrado demasiado submissos a estes ataques à ordem internacional e à actuação destes autocratas, destes predadores. Muitos governos, incluindo Portugal, têm apaziguado os ataques dos Estados Unidos, de Israel e de outros Estados poderosos ao multilateralismo, ao direito internacional e às protecções dos direitos humanos.
A secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, fala numa “ordem predatória”, alertando para o afastamento de um sistema político baseado em regras internacionais firmes e...
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“1001 Noites Irmã Santomense” encerra a tetralogia do Teatro O Bando
4/20/2026
“1001 Noites Irmã Santomense” é o espectáculo que encerra a tetralogia criada pelo histórico grupo de teatro português O Bando, encenado por Miguel Jesus com estreia a 8 de Maio, em Palmela, perto de Lisboa. O espetáculo tem a actriz santomense Adozia Cristo - que se popularizou com a personagem Saco de Boxe - como uma das protagonistas. A RFI esteve nos ensaios e falou com Adozia Cristo, “Saco de Boxe” revela que tem muito de São Tomé e Príncipe para colocar em palco.
“1001 Noites Irmã Santomense” é o espectáculo que valoriza a cultura de São Tomé e Príncipe e encerra a tetralogia colocada em cena pelo Teatro O Bando desde 2023.
Depois de Irmã Persa, encenada por Suzana Branco, Irmã Palestina, encenada por Olga Roriz e João Brites, e de Irmã Mapuche, encenada por João Neca, agora coube a Miguel Jesus encenar Irmã Santomense.
A cada nova Irmã, um novo olhar sobre o mundo que contém o desafio de um convite a outros públicos, um novo questionar sobre violência e poder.
Irmã Santomense é elo de conexão com São Tomé e Príncipe. A actriz Adozia Cristo trás a experiência pessoal, trás a preservação do Tchiloli, a valorização da língua Forro e da cultura de São Tomé e Príncipe.
O espectáculo “1001 Noites Irmã Santomense” estreia a 8 de Maio, na Quinta do Teatro O Bando, em Palmela, 40 quilómetros a sul da capital portuguesa.
A RFI esteve no espaço onde decorrem os ensaios, falou com o actor e músico Mick Trovoada, com a actriz Adozia Cristo (muito popular entre santomenses pela personagem Saco de Boxe), e falou também com o encenador Miguel Jesus, do Teatro O Bando, e com Isabel Mota, da Ilhéu Portátil, que começam por nos revelar como surgiu o espectáculo “1001 Noites Irmã Santomense”.
Isabel Mota, Ilhéu Portátil: É um projeto do Teatro Bando, e a Irmã de Santomense surge aqui um pouco da relação que eu tenho com São Tomé, do meu trabalho na Ilhéu do Portátil e nas questões da literatura para crianças e de ter um dia chegado ao O Bando com o vídeo de uma atriz de santomense, a Dozia Cristo. Mostrei ao João Brites e ao João Neca o trabalho daquela atriz de santomense, estive-lhes a falar um bocadinho da língua, do Forro, da sonoridade que esta língua tem, que é tão bonita, e a lembrar também a relação que o Teatro Bando tem com São Tomé, com o Tchiloli, com o facto de já terem estado em São Tomé.
Entretanto, O Bando convidou a Adozia a vir cá em dezembro do ano passado para passar uma semana lá no Bando, para conhecer as pessoas, para eles a conhecerem, e no final dessa semana decidiram que iriam fazer o projeto As Mil e Uma Noites e a Irmã Santomense. Agora ela está, neste momento, no espaço d’O Bando a fazer ensaios para esta peça que vai estrear agora em maio.
RFI: O trabalho da Isabel não ficou por aí, fez questão de juntar outros nomes de São Tomé e Príncipe.
Isabel Mota: De facto, eu entusiasmo-me um bocadinho. Quando o Miguel Jesus me pediu nomes de músicos, porque queria também aqui algumas referências de músicos ligados a São Tomé, eu falei-lhe de vários músicos, nomeadamente o Mick Trovoada e o DJ Marfox. O Miguel Jesus gostou bastante do trabalho deles e, portanto, falou também com eles. Eles aceitaram participar desta peça. O Mick Trevoada participa como intérprete e também toca música ao vivo, e tivemos a grande sorte de conseguir que o DJ Marfox tivesse disponibilidade para ir ao O Bando, conhecer O Bando, e fez um tema para esta peça.
RFI: Depois há também a vertente das artes plásticas de São Tomé.
Isabel Mota: Sim, eu convidei-os a irem conhecer o trabalho de alguns artistas plásticos. Havia artistas com exposições em Lisboa, exatamente naquela altura em que andavam a fazer pesquisas e a tentar perceber qual seria o ambiente da peça e o que iria entrar na peça. Nessa altura, o Emerson Quinda tinha a sua primeira exposição individual em Lisboa, ali no Camões, no Marquês de Pombal. Então, lá foi o Emerson Quinda passar três dias ao O Bando, onde esteve a desenhar, a trabalhar, a fazer as suas figuras, que...
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Muxima: “Pedi que melhorasse a vida da minha família e que rezasse por nós”
4/20/2026
No segundo dia da sua deslocação a Angola, o Papa Leão XIV deslocou-se à vila da Muxima, na província de Icolo e Bengo, onde foi recebido por uma multidão de fiéis que há vários dias aguardavam a sua chegada junto às margens do rio Kwanza, no emblemático Santuário da Muxima.
A visita do Sumo Pontífice ao santuário mariano, este domingo, 19 de Abril, ficou marcada por um ambiente de grande júbilo e emoção. No local, o Papa presidiu à oração do Santo Rosário, onde destacou a centralidade da figura de Maria como exemplo de amor e proximidade.
Perante uma multidão de fiéis, o Papa sublinhou que a oração do terço não pode ser separada da vida concreta nem da responsabilidade de cuidar dos mais vulneráveis: “Rezar o terço é comprometer-nos a amar cada pessoa com coração maternal, especialmente os mais pobres. Amá-los a todos da mesma forma, empenhando-nos, sem limites, para que a ninguém falte amor e a comida necessária para viver com dignidade e ser feliz.”
O Sumo Pontífice referiu-se também ao projecto em curso de construção de um novo santuário na Muxima, apresentado como sinal de abertura ao futuro e de acolhimento, especialmente para os jovens. “Neste lugar, está em curso um grande projecto: a construção de um novo santuário, capaz de acolher todos os que aqui vêm em peregrinação. Especialmente os jovens. Tomai isso como um sinal.”
E aos jovens deixou um apelo à construção de uma sociedade mais justa: “A vós, a Mãe do Céu confia o grande projecto de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade.”
Leão XVI insistiu que a fé cristã deve traduzir-se na vitória do amor sobre todas as formas de violência e divisão. “O amor deve triunfar, não a guerra. É isso que nos ensina o coração de Maria.”
A celebração terminou com o líder da Igreja Católica a expressar-se em kimbundu, língua angolana, “Mama Muxima Tueza Kukue, Mama Muxima tutambulule” (“Mãe do Coração, viemos até Vós para oferecer-Vos tudo.”), para júbilo dos fiéis que o aplaudiram vivamente.
Após a cerimónia, a RFI ouviu vários peregrinos que partilharam com emoção o impacto da visita papal. Dizem ter recebido a mensagem do Santo Padre “com muito amor”, apelando para que as autoridades nacionais também a acolham profundamente. Muitos referiram também dificuldades sociais e económicas, como o desemprego, a fome e a falta de condições de vida digna.
Em declarações à RFI, o padre Mpindi Alberto, reitor do Santuário da Muxima, destacou o andamento das obras de requalificação do espaço, que incluem a construção de uma futura basílica. Segundo o responsável, o projecto, concebido com apoio das autoridades estatais, deverá estar concluído dentro de dois a três anos.
O sacerdote sublinhou, ainda, que a transformação do santuário poderá ter um impacto significativo no desenvolvimento da região, através do turismo religioso, à semelhança de destinos internacionais como Lourdes, em França, Fátima, em Portugal, ou Aparecida, no Brasil.
Sobre as mensagens sociais do Papa Leão XIV, incluindo críticas às desigualdades e aos modelos económicos extractivistas, o reitor do santuário considerou que o objectivo não é confrontar governos, mas promover uma reflexão espiritual e humana: “O Papa não vem para atacar, mas para lembrar que somos irmãos”, acrescentando que a mensagem papal é um convite à responsabilidade individual e colectiva na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
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Papa Leão XIV recebido com euforia em Luanda
4/19/2026
Luanda viveu este sábado, 18 de Abril, momentos de grande entusiasmo com a chegada do Papa Leão XIV ao Aeroporto 4 de Fevereiro. O avião papal aterrou cerca de 15 minutos antes da hora prevista, sendo recebido por milhares de fiéis que aguardavam há horas sob um sol intenso para ver de perto o Sumo Pontífice.
Entre cânticos, aplausos e acenos, o Papa seguiu pelas principais artérias da capital angolana, desde o aeroporto até à Presidência da República. Já no Palácio Presidencial, Leão XIV manteve um encontro privado com o Presidente João Lourenço, antes de discursar perante autoridades governamentais, representantes da sociedade civil e diplomatas acreditados em Angola.
No seu primeiro discurso em território angolano, o Papa apontou o dedo hoje em Luanda àquilo que descreve como uma “cadeia de interesses” que “reduz a realidade e a própria vida humana a uma mera mercadoria”. O Sumo incidiu sobre o modelo extractivista, assente na exploração intensiva de recursos naturais sem retorno proporcional para as populações locais. E questionou: “Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarretam esta lógica extractivista?”.
O Presidente João Lourenço, por sua vez, destacou a importância da colaboração entre o Estado e a Igreja Católica, sublinhando o papel da instituição religiosa na formulação de políticas sociais em áreas como saúde, educação, habitação, energia e combate à pobreza. O chefe de Estado defendeu ainda um envolvimento mais activo da Igreja como parceira no desenvolvimento do país.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
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Fé, multidão e expectativa: Kilamba pronto para receber o Papa
4/18/2026
A poucas horas da missa campal presidida pelo Papa Leão XIV, na centralidade do Kilamba, nos arredores de Luanda, o ambiente é já de grande expectativa. No local onde o Sumo Pontífice vai celebrar, os preparativos entram na fase decisiva e os ensaios sucedem-se, afinando cada detalhe de uma cerimónia que deverá reunir milhares de fiéis. A RFI esteve no terreno e acompanhou de perto o ensaio dos seminaristas que vão participar activamente na celebração.
Sob orientação do padre Daniel Mateos, da diocese de Luanda, repetem-se gestos, ajustam-se movimentos e afinam-se os últimos detalhes para este que será um dos pontos altos da visita de Leão a Angola.
O sacerdote vai explicando a disposição dos diferentes grupos, corrigindo movimentos e ajustando o ritmo.
“Vai ser missa dominical. E o extraordinário é que vai ser o Santo Padre a celebrar”, explicou o padre Daniel Mateos, sublinhando a dimensão inédita do evento: “se espera mais de 1 milhão de pessoas”.
Na mensagem que poderá deixar sobre Angola, o sacerdote antevê um discurso directo e sem hesitações por parte do Papa Leão XIV: “O nosso Papa Leão não tem medo de dizer a verdade”. Segundo o responsável, é expectável que toque nas desigualdades sociais, num contexto em que o crescimento económico nem sempre se traduz na melhoria efectiva das condições de vida da população. Trata-se, diz, de uma realidade “muito visível” e que faz parte do quotidiano de muitos angolanos, sobretudo nas periferias urbanas.
Ao mesmo tempo, o sacerdote acredita que o Papa deverá reforçar uma mensagem de paz e reconciliação, num momento que considera sensível do ponto de vista político e social. “No próximo ano, em 2027, serão as eleições. Muita gente tem um pouco de receio do que possa acontecer, um clima de expectativa e medo do que poderá acontecer. Então, esperamos também que o Papa venha trazer paz, tranquilidade e sobretudo esta reconciliação aqui em Angola”, afirmou.
Entre correcções e repetições, a RFI falou com alguns dos seminaristas envolvidos na cerimónia, que partilharam o significado deste momento e a emoção e nervosismo de participar na missa presidida pelo Papa Leão XIV.
Vivaldo António, seminarista da Arquidiocese de Luanda e estudante do quarto ano de Teologia, integra o grupo que vai acolitar a missa papal. O sentimento oscila entre emoção e responsabilidade, “o Santo Padre é o sucessor de Pedro e vem para poder abençoar a nossa terra”. Para o jovem, trata-se de uma presença rara e profundamente marcante, vivida com expectativa e sentido espiritual.
Já Wilson Paulo Marinheiro, do Seminário Maior da Diocese de Viana, reconhece a preparação, mas também o peso da responsabilidade. “Sentimo-nos preparados porque já estamos a dar respostas positivas no que toca aos nossos ensaios”, acrescentando que o receio de falhar está presente, mas é ultrapassado pela preparação e pela fé.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
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Angola: “Vamos receber Leão XIV com todo o carinho, com as duas mãos”
4/17/2026
Na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda, vive-se um ambiente de expectativa e azáfama à medida que se aproxima a visita do Papa Leão XIV. À entrada do recinto, uma imagem do Sumo Pontífice dá as boas-vindas aos fiéis, enquanto, no jardim em frente, vendedoras propõe bancas repletas de artigos alusivos ao líder da Igreja Católica, desde panos e t-shirts a lenços, chapéus e terços.
As vendas reflectem o entusiasmo gerado pela visita. “Graças a Deus as vendas estão a correr muito bem, muito bem mesmo”, conta uma das vendedoras, destacando que os lenços são os artigos mais procurados: “Sai mais lenços. É um pouco mais barato e é o que as pessoas mais usam”. Ainda assim, refere que os produtos estão prestes a esgotar: “Para falar a verdade, t-shirts e panos já estão quase escassos. Só sobraram lenços e eu espero acabar mesmo até lá.”
Para muitos, este momento tem também um significado pessoal profundo. Católica, desde sempre, a vendedora não esconde a emoção: “É uma felicidade imensa, porque nos outros Papas eu era uma bebezinha e não podia ir, mas nesta vez eu vou ver.” Entre os pedidos que pretende fazer ao Santo Padre, destaca “saúde, amor e proximidade a Deus”.
“Tem havido mais vendas, porque o Papa está a chegar aqui em Angola. É boa para nós, para a economia angolana”, afirma outra comerciante, sublinhando que a preparação começou assim que foi anunciada a deslocação.
Entre os fiéis, o sentimento é de alegria e esperança. “Fico feliz por saber que o Papa Leão XIV vem cá”, diz uma paroquiana, que espera que a visita traga melhorias ao país: “Que abençoe Angola e que Angola possa melhorar mais no seu quotidiano.”
A devoção mariana também marca presença, com referências à Muxima, local de grande significado religioso no país e que o Leão XIV visitara no domingo 19 de Abril para presidir à oração de um Santo Rosário (terço) “Muxima significa coração, é a nossa Mãe”, explica uma fiel.
“Vamos receber com todo o carinho, com as duas mãos”, afirma uma outra crente, recordando a passagem do Papa João Paulo II por Angola. Questionada sobre o que irá pedir, responde: “Uma bênção para nós angolanos, para as nossas famílias e filhos.”
A expectativa estende-se também às questões sociais. Entre as principais preocupações apontadas pelos fiéis estão a pobreza e as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. “Acredito que o primeiro problema seja mesmo a pobreza, o nível de crianças desamparadas”, “as cheias que assolaram muitas famílias em Benguela… há muito luto. Que ele diga algo que possa consolar os nossos corações”, disseram outras fiéis junto à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Luanda.
A deslocação do Papa Leão XIV a Angola arranca amanhã, sábado, 18 de Abril, com passagens pelo Kilamba (arredores de Luanda), pela Muxima (um dos maiores centros de peregrinação da África subsaariana) e por Saurimo.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
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“Angola em paz, mas com crise profunda”: os desafios da visita do Papa Leão XIV
4/17/2026
A visita do Papa Leão XIV a Angola, de 18 a 21 de Abril, insere-se num périplo africano que inclui várias etapas e que, no caso angolano, passará por Luanda, Muxima e Saurimo. A deslocação é encarada pelas autoridades e pela Igreja como um momento de grande mobilização espiritual e social. Em entrevista à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo e presidente da CEAST, sublinha que o Sumo Pontífice "vai encontrar uma Angola em paz”, “embora a atravessar uma crise económica, social e cultural muito profunda e que está a afectar o próprio desenvolvimento das famílias”.
Em entrevista à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), afirmou que “toda a comunidade cristã, e não só, está entusiasmada e galvanizada para acolher o Santo Padre. E em termos logísticos, as condições estão todas criadas. (...) Estamos prontos para acolher condignamente o Santo Padre.”
Esta será a terceira visita de um Papa a Angola, depois de João Paulo II em 1992 e Bento XVI em 2009. Para Dom José Manuel Imbamba, o país que agora se prepara para receber Leão XIV é diferente. “Vai encontrar uma Angola em paz”, “embora actualmente o país esteja a atravessar uma crise económica, social e cultural muito, muito profunda e que está a afectar e de que maneira, o próprio desenvolvimento das famílias e a realização dos seus sonhos.”
O arcebispo considera que a presença do Papa terá um impacto espiritual importante: “O Papa trará a sua palavra de conforto, de esperança e de encorajamento para que todos nós nos empenhemos na construção de uma Angola mais irmanada, uma Angola mais reconciliada.”
A visita do Papa Leão XIV inclui três locais distintos: Luanda, Muxima e Saurimo. Para Dom José Manuel Imbamba, a escolha resulta da dinâmica pastoral do país. “Luanda é a capital política, a capital religiosa. Era incontornável”. Já o Kilamba, onde será celebrada uma missa campal, foi escolhido pela sua capacidade de acolhimento: “uma localidade urbana muito jovem, muito nova e dinâmica e que está a crescer e é o local que ofereceu o melhor espaço para acolher as milhares de pessoas.”
Sobre a Muxima, destacou o peso espiritual: “um santuário mariano, o coração de Angola em termos de espiritualidade mariana”, um espaço “secular que conhece vivências muito fortes”.
Quanto a Saurimo, sublinha o carácter simbólico da visita ao interior do país: “nunca tinham visitado o Leste e por isso achamos por bem que era a altura de o Santo Padre também vir conhecer esta realidade”, de uma região ricas em recursos naturais, mas que contrasta com a pobreza das comunidades.
Para o arcebispo, a visita também deve ser entendida como um sinal para o país no seu todo. “As oportunidades devem ser iguais para todos. As realizações devem se fazer sentir em todas as partes”. E acrescenta: “é um chamariz muito importante, o país é um todo”, sublinhando a importância das periferias e das zonas menos desenvolvidas.
Sobre o possível aproveitamento político da visita, Dom José Manuel Imbamba é claro: “É inevitável numa sociedade como a nossa, é normal que os partidos tirem os seus proveitos. O mais importante é termos a figura espiritual do Santo Padre para nos unir.”
Quanto ao financiamento da visita, o arcebispo explica que há uma partilha de responsabilidades: “há uma partilha de custos por parte da própria Santa Sé, do Estado angolano que acolhe e da Igreja angolana que acolhe”. Acrescenta, ainda, a participação da sociedade: “há uma mobilização dos próprios fiéis, dos empresários, dos amigos que se solidarizam com estas causas”.
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Papa Leão XIV em Angola: "Os escuteiros estão ávidos, todos querem ouvir e ver o Papa"
4/16/2026
A visita do Papa Leão XIV a Angola, entre 18 e 21 de Abril, está a mobilizar milhares de fiéis e voluntários por todo o país. Entre eles, os escuteiros católicos que assumem um papel central na organização e segurança dos principais momentos da deslocação do Sumo Pontífice, que inclui passagens por Luanda, Muxima e Saurimo. Em entrevista à RFI, o coordenador da Associação dos Escuteiros Católicos de Angola, Gilberto Gil Lopes, revelou a dimensão do dispositivo montado: “Vamos participar com 11.414 escuteiros no total”.
O trabalho dos escuteiros será essencialmente de apoio logístico e segurança, sobretudo ao longo dos percursos do Papa. “Vamos fazer um cordão humano nas ruas. O Papa vai passar com o papamóvel (…) os escuteiros vão fazer o trabalho do cordão humano nesse perímetro para o povo não ir para a estrada”.
Além disso, os voluntários terão várias outras funções: “vamos também fazer o acolhimento das pessoas que se dirigem aos espaços de celebração, indicar como é que chegam, ajudar com água, com os cadeirantes, apoiar na saúde (…) apoiar os alojamentos, os transportes”.
Para garantir o bom funcionamento da operação, foram realizados vários momentos de formação. “Tivemos cinco encontros preparatórios, dois online e três presenciais. Fizemos também simulacros”, afirmou Gilberto Gil Lopes. A preparação incluiu não só questões logísticas, mas também comportamentais e de gestão de risco: “quem é o Papa, como é que nos devemos comportar num encontro como esse com tanta gente (…) a gestão de risco, uma visão de 360 graus e ver possíveis riscos”. A coordenação com as autoridades também tem sido fundamental. “Tivemos várias reuniões (…) para alinhar tudo: percurso, zonas mais críticas, abordagem de cada um, o limite da autoridade de cada um”, acrescentou coordenador dos Escuteiros Católicos de Angola
Apesar de Angola já ter recebido visitas papais no passado, o entusiasmo mantém-se elevado, sobretudo entre os mais jovens. “É diferente”, reconheceu Gilberto Gil Lopes, lembrando que muitos escuteiros já participaram na visita de Bento XVI, mas há também uma nova geração envolvida. “Os escuteiros estão ávidos (…) todos querem ouvir, ver o Papa passar”, sublinhando o impacto simbólico do momento: “para nós também é uma renovação da nossa fé, uma renovação da nossa espiritualidade, um encontro com a nossa Igreja”.
O responsável deixa ainda algumas recomendações práticas para quem pretende assistir: “chegar cedo (…) levar água, protector solar (…) e vir com alegria”.
O Papa Leão XIV desloca-se a Angola, de 18 a 21 de Abril, a visita deverá pôr em evidência as temáticas sociais defendidas pelo líder da Igreja Católica: um país rico em petróleo e minerais, mas marcado por profundas desigualdades, onde cerca de um terço da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza. Leão XIV deverá insistir na gestão equitativa dos recursos e no combate à corrupção.
O Papa desloca-se à capital Luanda, nas margens do Oceano Atlântico, símbolo de contrastes onde coexistem bairros de luxo e bairros de lata, bem como ao santuário mariano de Muxima, principal local de peregrinação nacional, e ainda a Saurimo (leste).
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Moçambique liquida dívida ao FMI, mas levanta riscos sobre reservas
4/15/2026
Moçambique liquidou antecipadamente mais de 700 milhões de dólares de dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), eliminando pagamentos previstos entre 2026 e 2029. O Governo garante que a operação foi feita com recurso às reservas internacionais, sem impacto no Orçamento do Estado. A decisão melhora a imagem externa do país, mas levanta dúvidas sobre sustentabilidade, uso de divisas e motivações estratégicas futuras.
A decisão de Moçambique de liquidar antecipadamente a totalidade da sua dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) está a ser interpretada como um sinal de reforço da credibilidade financeira, mas também como uma operação que exige prudência, num contexto económico ainda frágil.
Segundo a economista do Centro de Integridade Pública (CIP), Estrela Charles, a medida deve ser lida em várias dimensões: “É uma medida positiva, sim, porque coloca Moçambique numa situação de uma melhor imagem em termos de dívida”, afirma, sublinhando, no entanto, que “temos que ser cautelosos e analisar de forma mais profunda esta questão da liquidação da dívida, exactamente por ter-se usado as reservas”.
A economista considera que a operação terá tido uma motivação estratégica clara: “Tudo indica que era uma questão mesmo para salvaguardar o balanço do Banco de Moçambique para os próximos empréstimos”. E reforça: “É como se Moçambique estivesse a arrumar a casa para novos financiamentos”.
Reservas internacionais sob pressão
O pagamento foi feito com recurso às reservas internacionais, uma opção que levanta preocupações num país altamente dependente de importações. “Significa que neste momento nós reduzimos a quantidade de meses que temos para poder importar”, explica Estrela Charles, lembrando que “Moçambique é um país muito importador”.
A economista alerta para o impacto potencial dessa redução: “Pode ter impacto a nível das reservas, da liquidez e da disponibilidade para o pagamento de algumas facturas, principalmente a dos combustíveis”. Acrescenta ainda que o país enfrenta já dificuldades estruturais: “Nós temos problemas de escassez de divisas” e “uma taxa de câmbio apresentada de forma falseada”.
Neste contexto, a utilização de reservas deve ser monitorizada. “O uso das reservas para o pagamento integral deve ser usado com muita cautela”, defende, apontando que cabe agora ao Banco de Moçambique “garantir que esta medida não tenha impacto direto nos problemas que já existem”.
Os riscos associados à operação são claros. “Quando reduzimos as nossas reservas internacionais significa que teremos menos capacidade para responder às nossas importações”, afirma Estrela Charles. Num cenário de possível subida dos preços dos combustíveis, a pressão pode intensificar-se.
“Poderá haver ainda mais dificuldades para satisfazer a importação destes bens e adquirir as divisas necessárias”, acrescenta, classificando o risco como “iminente”.
Ainda assim, a economista admite que a decisão pode trazer benefícios futuros, desde que bem gerida. “Estamos a sacrificar as nossas reservas hoje para podermos ter um ganho futuro”, sintetiza.
Uma aposta na credibilidade do país
Para Estrela Charles, o pagamento antecipado tem uma forte componente política e estratégica. “É uma medida que deixa Moçambique com uma imagem bonita e provavelmente irá abrir outras portas para financiamentos futuros”.
A economista não tem dúvidas quanto à intenção: “Acredito que esse foi um motivo fundamental; colocar o país numa situação mais credível e negociar melhor futuros empréstimos”.
Este reforço de imagem surge num contexto em que Moçambique procura recuperar a confiança internacional após o escândalo do caso das Dívidas Ocultas. “Essa imagem é fundamental, é a base para conseguirmos negociar melhor as próximas dívidas”, sublinha.
Apesar do impacto positivo na percepção externa, os benefícios imediatos para a população são reduzidos. “Em termos de impactos sociais, praticamente não teremos nenhum”, admite. “Não vamos ter vantagens em infraestruturas ou...
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Cheias deixam rasto de destruição em Benguela
4/14/2026
Na província angolana de Benguela, há pessoas desaparecidas e teme-se que haja muito mais vítimas mortais do que as avançadas, até esta segunda-feira, pelas autoridades. No domingo, o transbordo do rio Cavaco provocou inundações que também destruiram infraestruturas e deixaram milhares de desalojados. Agostinho Celestino, Director da Aldeia de Crianças SOS Benguela, falou-nos sobre a situação no terreno e lançou um apelo à solidariedade.
A província de Benguela tem sido afectada por fortes chuvas que, no domingo, provocaram o transbordo do rio Cavaco devido ao rompimento de um dique. O último balanço do Serviço de Protecção de Civil e Bombeiros divulgou, na segunda-feira, que o número de mortes subiu para oito, com sete pessoas desaparecidas. Porém, teme-se que haja muito mais vítimas. Há, ainda, milhares de desalojados.
A força da corrente destruiu casas, infraestruturas, deixou submersa a ponte rodoviária sobre o rio Cavaco e também obrigou à suspensão da circulação ferroviária no Corredor do Lobito. A Aldeia de Crianças SOS Benguela também foi afectada pelas inundações, teve de ser evacuada e houve uma onda de solidariedade para alojar os residentes em locais mais elevados.
Agora, o objectivo é ajudar as famílias que ficaram isoladas. Agostinho Celestino, Director da Aldeia de Crianças SOS Benguela, explicou à RFI que se está a fazer um mapeamento das pessoas que ainda não receberam apoio por estarem em zonas de difícil acesso - que estima em uma centena de pessoas - e disse que os voluntários da Aldeia irão distribuir-lhes comida, vestuário, mosquiteiros, kits de higiene, material de segurança, botas e cordas, entre outros bens. A Aldeia espera poder contar com a solidariedade de todos os que possam ajudar.
Agostinho Celestino conta que centenas de casas desabaram em Benguela e teme que o número de vítimas mortais possa chegar às centenas. Até esta segunda-feira, as autoridades confirmaram oito mortos.
Oiça o testemunho neste programa.
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